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MONTARIA JUMENTAL

Tema que me fascina é o da sobrevivência e predominância da cultura ocidental e cristã no Novo Mundo. Sem entrar no mérito - ou demérito – do processo de ocupação/dominação do continente americano, imaginemos como terá sido sofrida e difícil a fixação dos colonizadores que se decidiram a enfrentar a aventura do desconhecido, em terras que viriam a ser brasileiras.

A partir de núcleos litorâneos, tais pessoas entraram sertão adentro, com o que povoados e vilarejos se formaram também no interior. Teriam como núcleo ideal a família, religiosa e legalmente constituída – o que nem sempre aconteceu. Arranjos diferenciados existiram, com ou sem a chancela das leis e das autoridades. E crianças nasciam, a cada dia em maior número.

Cedo cuidou a Coroa portuguesa de catequizar o gentio e  manter fiéis os habitantes das novas terras descobertas. Com a criação das escolas de ler e escrever dos jesuítas, teve início a transposição dos elementos básicos da cultura ocidental e cristã para o Novo Mundo.

Isolados e frouxamente dispersos, os núcleos populacionais consolidaram-se a partir dessa herança cultural, transmitida de geração em geração - em um primeiro momento pelas próprias mães, que ensinavam aos filhos a língua portuguesa e as orações. Seguia-se a ação da igreja, levando assistência espiritual e inculcando valores cristãos na sociedade em formação. Ressalte-se também o papel desempenhado pelos mestres-escola e professoras de primeiras letras, que pouco a pouco se espalharam por toda a parte.

Não era fácil, contudo, freqüentar a escola regular e adquirir instrução formal. Entre os parentes de meu saudoso pai – os Ferreira da Silva, do sertão baiano - há uma personagem que a memória familiar consagra na Velha República: o Tenente (honorário) Amerino Oliveira Lima (1859-1955). Bisneto do fundador da Vila do Raso (hoje Araci), ele nasceu na fazenda do Poço das Madeiras, onde residiam seus pais e irmãos. Muito cedo demonstrou grande interesse e facilidade em aprender – pelo que seu pai contratou um professor para lecionar na fazenda.

O jovem destacou-se entre os colegas e progrediu rapidamente nos estudos. Na época, prevalecia o método “de ensino mútuo” – em que os alunos mais adiantados (decuriões) ensinavam os mais atrasados. Designado pelo mestre para tal função, Amerino desempenhou-a bem, até concluir o curso primário.

Desejava prosseguir os estudos, mas não tinha condições de manter-se na capital do Estado, com vistas a matricular-se em um Liceu ou colégio secundário. Resolveu estudar por conta própria, sem prejuízo do trabalho na fazenda e dos encargos da política, que o atraíam.  Sequioso de conhecimentos em áreas que incluíam agronomia, pecuária,  medicina e farmácia, não relutava em comprar livros,  dicionários e compêndios especializados; também assinava revistas e jornais editados em Salvador da Bahia e na capital da República, o Rio de Janeiro. Como o fazia? Através de quais meios ou instituições?

Textos biográficos informam que, para vencer as distâncias que o separavam dos maiores centros culturais do país, Amerino mantinha um “estafeta (...) para condução de correspondências e objetos de reembolso postal em alforges” – espécie de sacos de couro. Como tesouros valiosos, livros e demais impressos chegavam às mãos do ávido leitor em uma “montaria jumental” – vale dizer: eram conduzidos passo a passo em lombo de jumento!

Nos tempos de hoje, de comunicação instantânea e até abusiva, é difícil reviver o clima de expectativa que certamente precedia à abertura de tais “alforges”. Lidas talvez à noite, à luz de velas de sebo ou de lampiões de querosene, muitas das lições, informações, notícias e novidades seriam de difícil entendimento para o estudioso solitário. De algum modo, contudo, durante décadas ele as assimilou, processou e divulgou entre seus conterrâneos, vindo a ser considerado “um sábio”. Respeitado e admirado, foi o mentor e coordenador da emancipação política da vila do Raso; tornou-se pioneiro na perfuração de cisternas na região do semi-árido e na plantação da palma; dedicou-se à apicultura e era visto como “médico leigo” na região, diagnosticando doenças e receitando fórmulas.

Vencendo dificuldades sem conta, Amerino cultivou e fez multiplicar seus próprios talentos, em eloquente exemplo de como o esforço individual bem orientado pode resultar em realização pessoal e benefícios para a sociedade.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 07 de abril de 2015).