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FESTA DE ANIVERSÁRIO

Dona Etelvina é do tipo que já viveu muito. A palavra viver pode ter vários sentidos e conotações, mas o que eu quero dizer é que minha vizinha viveu mesmo! Viveu vivendo! Viveu absorvendo o melhor da vida, respirou aromas distintos, contemplou paisagens exóticas e procurou aguçar sua sensibilidadeem tudo. Certavez ela me contou que aos vinte anos pintou um quadro de uma cachoeira e um certo tio do Norte, professor universitário, não desistiu enquanto não viajou de volta com sua a obra de arte debaixo dos braços. Não vi, mas deve ter ficado muito bonito. Minha dedução vem do  fato de que ela fala de tantas coisas bonitas, fala de  cachoeiras de forma tão romântica e encantadora que seria impossível não transpor isso para um quadro. Acredito nela! Posso até imaginar seu quadro... fixo a uma parede da sala de estar de seu tio (se estiver vivo. Se não, que Deus o tenha em bom lugar). Certa vez ela me falou de um passeio a cavalo nos pampas do Sul e de um abstrato que ela produziu, logo após a cavalgada, em acrílica sobre tela com tons bem fortes onde podiam-se ver  manchas negras sobre um fundo verde com traços de marrom. Abstrato é abstrato mas fiquei imaginando que o preto seria as patas do animal em movimento sobre a relva verde, o marrom seria a cor dos animais. Outra vez  ela relatou um cruzeiro que fizera ao Caribe e depois uma viagem ao Rio Amazonas. Retirando os detalhes como retira livros empoeirados de uma estante alta ou papéis antigos de uma gaveta emperrada, minha amiga fala, fala, fala e eu ouço atentamente ao mesmo tempo que conto suas rugas e a imagino em sua beleza e jovialidade. Suas falas são entrecortadas por tosses e alguns poucos lapsos de memória, mas a essência do vivido não escapa a essa gazela cheia de dias. Vejo nela uma avó que não tive ou talvez uma compensação por não ter vivido tanto como ela (Freud deve explicar isso).  

 

            Sempre gostei de sentar ao seu lado e ouvir suas descrições pictorescas, suas histórias de aventuras, suas receitas, suas poesias e até conselhos de amor! E isso aos 80 anos de idade... é isso mesmo, 80 anos! Ela disse que era 85, mas o convite fala de80. Afamília deve estar certa, deve ter sua certidão de nascimento e talvez não faria essa festa se fossem 85. Afinal, 80 é mais significativo, mais simbólico, redondo, arredondado: são oito décadas. Oito filhos, 18 netos e 8 bisnetos. Ah! é isso! Agora que percebi o jogo matemático. Deve ter sido organizado pelo filho mais novo que é formadoem Matemática. Muitocriativo se não tiver sido mera coincidência.

 

-         Tudo bem? Falta alguma coisa? Bebida? Salgados?

 

Ah, claro! Tudo bem. Não, não falta nada. Obrigado.  Respondo sorrindo sem distinguir bem quem é meu interlocutor. Tento descobrir qual o grau de parentesco com minha amiga e não consigo. Não se parece com os filhos, nem com os netos e é a primeira vez que vejo tal figura por estas bandas. Na verdade nem sei como me descobriu aqui no meu cantinho, debaixo dessa mangueira. Todos estão  tão absortos, envolvidos em seus próprios colóquios... grupos de discussões... Quantos grupos? Deixe-me contar: um, dois, três, quatro, cinco, seis... dez! dez grupos ao total e cada grupo com a média de quatro a sete pessoas. Só adultos. Não estou contando a massa disforme de crianças que corre de um lado para o outro na maior liberdade possível. 

 

            Gostaria de ter chegado cedo para poder conversar um pouco com minha querida anciã e ouvir dela suas expectativas a respeito desse dia prazeroso. Havia uma semana que não falava com ela porque seu estado de saúde agravara nos últimos dias e não conseguia mais andar com as muletas. Só ontem que vi sua figura esguia e flácida na cadeira de rodas através da janela aberta, ao passar rapidamente por sua calçada. Recebi o convite de seu aniversário há poucas horas quando Joana foi a minha casa levar. Joana é a filha solteirona. Parece tanto uma freira daquelas que ficam enclausuradas em celas de mosteiros sombrios e só saem quando é estritamente necessário. Veio sorrateira, desculpou-se dizendo que a festa foi uma surpresa. Como havia muitos anos que não se viam, todos os filhos resolveram marcar esse encontro. Nem ela sabia da trama dos irmãos. Pediu que levasse esposa e filhos, etc. Não deu! Eles já tinham saído. E agora estou aqui representando minha casa e a associação dos amigos da dona Etelvina. Associação cujos membros sãos eu... e... meus filhos, é... meus filhos! E minha mulher. Cheguei, cumprimentei alguns e logo achei um cantinho confortável. Um cantinho onde eu poderia ter uma boa visão do todo, uma visão geral dos acontecimentos e não estaria muito longe da comprida mesa com os víveres. A aniversariante demorou a chegar. Joana veio empurrando sua cadeira e a estacionou em um cantinho cheio de samambaias, próximo à outra extremidade da mesa. Os grupos continuaram em seus colóquios altissonantes. Quanto assunto! Dévio falava de sua empresa e das novas medidas gerenciais tomadas por  um consultor em marketing, especialista em vendas one-to-one (ele fez questão de acentuar a pronúncia). Adélia, sua mulher, preferiu enlevar-se pelo toque de violão de um primo distante (novão, bonitão e especialista em outro tipo de “marketing”). Ricardo evitava o grupo liderado por Dévio. São irmãos mas não se falam há anos. Na festa de aniversário de 70 anos (quando foi mesmo? Foi exatamente há 10 anos atrás, ou não? Não me lembro!) os dois discutiram e chegaram a trocar  uns dois ou três socos. Foi mais divertido. Hoje a festa está um pouco pacata, inclusive minha amiga nem mudou a posição em que a colocaram. Até o momento poucos lhe dirigiram a palavra. Estão mais preocupados com o preço do carro novo (pelo menos foi assunto que aquelas últimas três passaram comentando por aqui). Eles não sabem que sou muito bom de ouvido e pude captar até um leve comentário, perdido entre outros,  sobre a necessidade de um testamento.

 

-         Quanto deve valer esta casa?

 

-         Fui no shopping na semana passado e tomei um banho de loja!

 

-         Já fez o curso que você queria?

 

-         Como vai sua clínica?

 

-         Não! Negativo! Falei ontem com o deputado e essa medida não será retroativa.

 

-         É sim, iniciei meu discipulado e faço corrente de oração duas vezes por semana.

 

-         Esteve no museu de cera? Ou só ficou perdido lá pela Piccadilly Circus?

 

-         Quase separamos! Ele não quis mudar a cor da sala do nosso apartamento.

 

-         Sabe o Joel? Está olhando pra mim com aquele olhar...

 

-         Cala a boca menino! Vai brincar pra lá senão meto um pau na sua orelha!

 

Fito minha amiga. Ela me olha e sorri. Seu sorriso é interrompido por alguém que coloca sua mão sobre sua cabeça e aos berros comenta:

 

-         Tudo bem mamãe?

 

-         Vamos cantar parabéns!

 

-         Atenção! Todos juntos!

 

Levanto e acompanho o coro: Parabéns pra você, nesta data querida... Viva! Etelvina é uma boa companheira (e que companheira), Etelvina é uma boa companheira! E isso ninguém pode negar...

 

-         Parte o bolo mãe!

 

-         É isso aí vó!

 

Seu ato é mecânico e, ajudada por Joana, tira um pedaço daquele bolo imenso escrito em letras verdes: happy birthday! Não sei porque, afinal ela não fala inglês nem tem nenhum parentesco com o anglofônicos. O que era happy ficou hap e o py foi parar na boca do bisneto mais novo. O hap foi rapidamente devorado pelo filho mais velho.

 

            Bolo devorado em poucos minutos, presentes colocados sobre a mesa, parabéns e abraços dados e a conversação é retomada. Retomo também meu cantinho e volto as minhas reminiscências.

 

Lembro-me bem de um dia em que ela retirou um papelzinho do bolso e me entregou. Era um papel de carta e nele figurava um conjunto de letras trêmulas e um pouco vacilantes que diziam:

 

            Momentos que dilaceram a alma

 

            Momentos de solidão

 

            Vou e venho com

 

            Calma

 

            Dou passos largos

 

            Pulo e salto

 

            Na escuridão.

 

            Viver, sonhar,

 

            Sonho vivido

 

            Feliz

 

            Coração.

 

            Perguntei de onde havia copiado e quem era o autor. Ela só respondeu que um dia eu descobriria a fonte e a pessoa que o fizera. Agora vejo a fonte distribuída em grupos e a escritora que mais uma vez me fita com seu olhar distante. Será que ela se lembra de sua poesia? Gostaria de perguntar. Permaneço a fitar seus longos cabelos brancos.

 

Os grupos que vão se desfazendo... Despedidas, beijos, abraços...

 

-         Até o ano que vem, vovó!

 

-         Qualquer coisa, Joana, é só ligar! Se precisar de alguma coisa...

 

-         Não esqueceu de comprar os remédios, não é?

 

Bem rápido o quintal fica vazio. Os vozerios se dissipam. Os carros vão embora. Permaneço como um ser inerte, como parte do tronco dessa grande árvore ou parte dessa sombra. O silêncio cai novamente sobre aquele quintal e os pássaros voltam a cantar (ou será que eles não tinham parado?). Faço um certo esforço físico e mental, mais mental que físico e me levanto. Afinal, é hora de ir embora.

 

Vó Etelvina, (às vezes gosto de chamá-la pelo título carinhoso de vó) felicidades! Muitos anos de vida! E ao contemplá-la só consigo completar minha fala com a recitação de seu poema: Viver, Sonhar, Sonho vivido, Feliz, Coração. Lembra dessas palavras? Ela me contempla. Vejo seus olhos brilharem e a boca sorrir.

 

-         Obrigado por ter vindo, filho! Numerosa minha família, não? Oito bisnetos, já pensou? Estou velha... Mas também, 85 anos!

 

-         É 80, mãe!

 

-         Ah, é?

 

-         É...

 

Matemática... maldita matemática!