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NÃO TEM JEITO

Não tem jeito: a indignação teima em sobreviver. Indignar-se é algo que vem do âmago, do mais profundo das pessoas - parte visceral da personalidade que, mesmo espezinhada, teima em não aceitar a mentira e a desonestidade.

A despeito de o homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, é imperfeita a natureza humana. Em assim sendo, para que seja possível a convivência, devemos pautar nossas ações segundo padrões de ética e de moralidade consensuais.

Na civilização ocidental e cristã – na qual estamos inseridos - os Mandamentos da Lei de Deus são explícitos: proíbem o falso testemunho, a mentira, o roubo, o furto e até mesmo a cobiça daquilo que pertence a outrem, inclusive a mulher do próximo. Como parte mesmo da nossa herança cultural, somos levados a valorizar a verdade e a honestidade, assim como buscá-las e exercitá-las.

Assim é que desde os passos iniciais, junto com as primeiras palavras e orações hauridas no ambiente familiar, tais virtudes nos são apresentadas como valores absolutos: não se deve mentir, não se deve esconder fatos e palavras; de igual modo, não se deve roubar, nem por qualquer meio apropriar-se do que pertence a outrem.

Ao longo da vida, momentos haverá em que não mentir e descartar a propina, o suborno ou a simples omissão podem ser incômodos, até aparentemente nocivos. Em algumas áreas de atuação, costuma-se dizer que ser verdadeiro e honesto é optar pela ingenuidade, quando não pelo fracasso. Tal assertiva aplica-se sobretudo aos políticos, os chamados “homens públicos”, aqueles que postulam ou exercem função pública. Melhor dizendo: homens e mulheres cujo objeto de trabalho é (deveria ser) o bem comum. Em todos os tempos e lugares, a classe política tem sido apontada como sendo formada de aproveitadores e enganadores do povo – a quem, mais do que nenhuma outra deveria valorizar e respeitar.

Uma das críticas recorrentes que se faz aos políticos é a de que não se mostram aos eleitores tal como de fato o são. Com efeito: os políticos estão a distanciar- se a cada dia mais da verdade, seja na definição do próprio perfil, seja na mensagem com que procuram capturar o voto do eleitor.

Nos meses que antecedem as eleições, é tempo de enganar – com regras e recursos do marketing comercial transpostos para o marketing eleitoral. Em termos imediatos, pode até funcionar - e candidatos assim maquiados conseguem sagrar-se vitoriosos. Como foi o caso do “Lulinha paz e amor”, que camuflou, elegeu e reelegeu o “hangry man” Lula, o antes sindicalista raivoso, três vezes derrotado para a Presidência da República.

De igual modo, mentiras e meias verdades elegeram para sucedê-lo a “Mãe do PAC”, competente e brava gerentona que iria erradicar a pobreza e fazer progredir o Brasil. Isso a partir do perfil sublimado da candidata Dilma Vana Rousseff, cuja incompetência gerencial e política veio à tona e assumiu a força de um “tsunami”, não se podendo prever aonde levará os brasileiros, ora perplexos e revoltados.   

Tais considerações vêm-me à mente diante das multidões que hoje, domingo, mais uma vez tomaram as ruas, as praças e as avenidas de centenas de cidades brasileiras. E que, fundamentalmente cobram e exigem verdade, honestidade e competência dos políticos e dirigentes do Brasil.

Chega de mentiras, chega de corrupção! Dizer que a roubalheira do mensalão, do petrolão e até da Receita Federal se explicaria com o “jeitinho” brasileiro, ou com a tendência nacional de furar filas é uma desfaçatez que clama aos céus. Assim como esse festival de “consultorias” que levaram (levam) milhões de reais para as contas de figuras carimbadas das zelites petistas e adjacências!

Sou do tempo em que se consultava o médico, o dentista, às vezes o advogado; finda a consulta, o cliente agradecia e remunerava o profissional pelo serviço prestado, de acordo com o preço vigente. Nada de pagamentos sigilosos, nada de contas em paraísos fiscais. Tudo simples, direto, transparente – sem marketing, nem segredos.

E pensar quantos são – nos diferentes níveis da administração - os conselhos, os tribunais de contas, as promotorias e corregedorias, as polícias de diferentes tipos! É de estarrecer que ninguém jamais tenha visto esse mar de corrupção que, além dos prejuízos causados, nos conspurca e envergonha a todos nós, cidadãos honestos. Isso sem falar nos presidentes, diretores, auditores, funcionários graduados e comissionados de órgãos oficiais e empresas públicas: ninguém sabia nada, ninguém viu nada, nem uma única e mísera suspeita toldou por um momento sequer os esplendores da República petista!

Não tem jeito: a indignação está no ar, é quase palpável. E agora? O que virá depois?

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 14 de abril de 2015)