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Entre Dores e Flores

          Nesses últimos dias vieram-me à lembrança versinhos que eu lia para meus filhos quando pequenos. Eram ilustrados com a figura de um velho todo curvado e apoiado em uma bengala, a quem dizia o neto: “Doe-lhe a perna, doe-lhe o rim/ Coitado do vovozinho / posso comer o seu docinho?” Via-se ali a antinomia infância/velhice, com a criança descobrindo os males da idade e querendo aproveitar-se deles, ainda que solidária e carinhosa com o avô.

 

          Nos dias de hoje, texto e ilustração seriam politicamente incorretos. Assim como politicamente incorretas parecem quaisquer manifestações negativas ou restritivas sobre o processo de envelhecimento. Generalizou-se a crença de que ao chegar-se aos 60 anos não há do que reclamar, mas tão somente celebrar a “melhor idade” – uma das muitas enganações que aceitamos passivamente, nesses tempos de ditadura do marketing.

 

          A velhice pressupõe, obviamente, o desgaste do corpo, preço que a natureza cobra pela sobrevida além dos anos de maturidade. Vai-se o viço da pele e dos cabelos, assim como a acuidade dos sentidos. Nem tudo está perdido, entretanto. Lembremos Paul Claudel, o poeta e dramaturgo francês: “Aos oitenta anos, nem olhos, nem ouvidos, nem memória... e descobrimos quão pouco precisamos deles!”

 

          De certa forma, dá-se também o desgaste da sensibilidade, as emoções como que arrefecem e até se embota a capacidade de sofrer. Poucos são os velhos que choram copiosamente, prerrogativa que é das crianças e dos jovens. Nas grandes tragédias, os anciãos mantêm-se estóicos, quando muito uma lágrima desce pelos rostos vincados; é como se não lhes restassem surpresas depois da longa estrada percorrida.

 

          Não é meu objetivo reclamar da velhice, mas tão somente situá-la como a vejo a partir de minha própria experiência. Nada de endeusá-la ou negá-la na sua essência de última etapa a ser vivida. Nos dias atuais, a vida prolongada de muitos tem a força de uma extraordinária mudança na sociedade, na qual passa a conviver e atuar uma parcela crescente de homens e mulheres encanecidos, cujos perfis diferem daquele predominante há algumas décadas.

 

          Com efeito: lembro-me que minha avó materna enviuvou aos 58 anos. De repente, a senhora meiga e ativa que ela era transformou-se numa anciã vestida de preto, o rosto lavado e triste, os cabelos brancos presos em um coque severo. Por mais duas décadas, esteve rodeada de filhos, genros, noras e netos, mas sempre de luto, reservada, austera. Em verdade, sua vida acabara com a morte do esposo, como se o tivesse acompanhado ao túmulo.

 

          Essa era a regra geral, mas os tempos mudaram. Nos dias de hoje, velhos e velhas não são forçados a vestimentas lúgubres e posturas rígidas, nem deles se exige que permaneçam enclausurados em casa e fechados em si mesmos. Há até certo exagero na liberdade que conquistaram (conquistamos?); por exemplo, nas hordas de viajantes anciãos que, usando jeans e tênis, arrastam-se atrás de guias turísticos pelo mundo afora. É possível encontrá-los em toda a parte: na Europa, na Ásia, na África, em Nova Iorque e na Disney, na Amazônia, no Pantanal, sempre ávidos de informação e dispostos a enfrentar as corridas de obstáculos em que se transformaram (para eles) as visitas a museus, sítios arqueológicos, reservas ecológicas etc. 

 

          Na minha geração, muitas de nós, mulheres, trabalhamos fora de casa desde jovens e temos nossas próprias aposentadorias. Nos duros anos de duplo expediente – como profissionais e como mães de família – não sobrava tempo, nem dinheiro, nem disposição para viajar. Vieram a fazê-lo aquelas que superaram as médias estatísticas de mortalidade feminina. Determinadas e dispostas, na bonificação que nos foi concedida partimos para realizar velhos sonhos, como ver a “Ronda Noturna”, no Museu de Amsterdam; ou freqüentar o Café Florian, em Veneza; ou subir o Calvário e rezar no local mesmo da crucificação de Jesus; ou mergulhar nas águas claras de Bonito...

 

          O problema é que, muitas vezes, o espírito é de curiosidade e determinação, mas o físico não corresponde. Por artes do tempo, subir escadas tornou-se um exercício que exige fôlego dobrado; e degustar iguarias, um desafio aos desgastes do trato digestivo.

 

          Mesmo assim, aproveita-se o que é possível e acessível – como contemplar aquela rosa aberta no jardim do Palácio Topkapi, em Istambul, a mais bela das que vi em minha (longa) vida.

 

          Então, por que reclamar? Há dores pelo corpo, há desfalques nos sentidos, há certo cansaço e uma ponta de descrença na alma. Mas o céu está azul, o calor aquece os membros fatigados, é possível controlar as dores da velhice. Há um festival de cores em meu redor: bromélias, cássias e buganvílias antecipam a primavera, ainda que o tempo se mantenha seco e a poeira se levante nos caminhos.

 

          Abençoada seja, pois, a terceira idade, com suas limitações e restrições, mas também com um sentido especial de sabedoria e de tolerância, capaz de mostrar aos mais velhos - entre dores e flores - a beleza da vida e os encantos do Planeta Terra, nossa morada transitória antes de partir.

 

 

 

(publicado no jornal “Diário de Manhã” de Goiânia em 16 de agosto de 2011)