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FICHA DE TRABALHO

Vou sentado na poltrona desse ônibus rumo ao centro da cidade. O barulho é ensurdecedor e atravessa os tímpanos que acompanham o gingado do carro em seu balanço pelas ruas esburacadas de bairros escuros e sombrios. A lata treme e o ronco do motor faz vibrar a cabeça destruindo milhões dos meus neurônios. As poucas pessoas dentro dessa nave estranha parecem autômatos de algum filme de ficção científica em que a terra é tomada por alienígenas galácticos, ETs de compridas trombas sugadoras de vida, sugadoras de ânimo, de vivacidade, de prazer, de esperança, de fé e de ilusões. Estranhamento o filme parece ter-se tornado real e parece mesmo que os bichos sugaram tudo! Ninguém se olha, ninguém conversa e o ônibus toma seu rumo costumeiro. Nem a distância é capaz de operar qualquer aproximação, qualquer contato... Os alienígenas devem ter ido embora e deixaram seus zumbis soltos por aí. Talvez até eu já virei um deles e não percebi, não me inteirei de quanto já sugaram de mim. Pisco os olhos repetidamente, olho para baixo e como que procurando esquecer isso e não permitir maior reflexão, viro mecanicamente a cabeça para fora e começo a observar a escuridão. Talvez assim o tempo passe mais rápido. O pior é que ainda não estamos nem na metade do caminho... O trecho é bem maior do que eu pensei e a viagem se torna um ritual de martirização ou ainda um ritual sabático de penitência e purificação dos pecados. Olho para as caras e parece que todos me imitam ou talvez é porque fazemos parte de uma encenação de uma peça sem graça, mas todos sabem muito bem desempenhar seu papel. Olho para eles... e elas! Que coisa, não tinha visto nenhuma mulher, mas há várias delas e por incrível que pareça algumas conversam baixinho, sussurrando sem nenhuma manifestação do rosto. Os homens fixam seus olhares no próprio pé, como eu. Outros miram o vazio procurando algo. O interessante é que a esperança, o sonho, o desejo, a vontade e outros sentimentos que trazem sentido à razão humana às vezes aparecem como um brilho pequenino no canto dos olhos. Mas as faces, ah! As faces, meus Deus!  Vejo só faces bestializadas e absortas... Dentro de mim a indagação continua: o que estarão pensado a essas horas da noite? Que espécie de sonhos passa por essas estranhas criaturas? Certamente que seu suplício deve acabar quando seus corpos autômatos adentrarem as portas de suas casas e ali talvez encontrarem suas esposas à espera  com um beijo ou um abraço. Com certeza isso poderá afagar-lhes a alma e devolver-lhes um pouco de vida. Quiçá um filho para pular em seus ombros ou ser beijado na cama. Pena que os alienígenas vão estar esperando por eles amanhã e sugarão o pouco do seu reabastecimento. Como é distante o caminho que leva à felicidade e talvez ninguém nesse ônibus barulhento chegue a encontrá-la. Nem eu.

 

Canso de meus devaneios e olho mais uma vez pela vidraça num simples ato mecânico. Ah, é isso... além de sugar a vida, os alienígenas altamente tecnologizados inseriram na gente um chip de mecanização: contemplo as ruas sem saber porque e procuro nelas algum sentido. Talvez haja sentido naquele casal sob a luz do poste, ou talvez no cãozinho que sai da rua indignado pela buzina do ônibus. Afinal é o único a expressar seu descontentamento, sua raiva e sua indignação. É... talvez os extra-terrestres não gostam de alma de cachorro, ou talvez o chip não funcionou neles. Bacana! Gostaria de ser cachorro. Mas talvez o chip não funcionou naquelas crianças brincando no pátio daquela casa. Como podem estar acordados assim a essa hora? E nesse instante descubro que há uma criança no ônibus. Uma não, duas. Ou melhor, três crianças ali bem perto há não sei há quanto tempo e não pude percebê-las antes! Meu chip deve estar com defeito (ou funcionando muito bem?). Entretanto, a falha (ou o bom funcionamento) não me impede de visualizar a alegria e a descontração desses pequenos. O pai, sentado na poltrona,  mira compenetradamente o papel comprovante de que “fez a ficha” solicitando trabalho.

 

-         Olhe aqui Nice. – Diz ele mostrando o papel para a mulher que está na poltrona da frente. – Aqui diz que sou o candidato número 10. Quer dizer, nove pessoas fizeram a ficha primeiro que eu e talvez uns trinta depois de mim.

 

-         Mas não desanima não porque desse punhado um vai ser escolhido. – Responde a mulher de forma pragmática.

 

-         Eu sei. Mas sabe lá se vai ser eu? Além do mais tem gente lá até com o segundo grau.

 

-         É... mas só Deus para ajudar os pobres.

 

Enquanto os dois conversam fico observando absorto. Não mais o  colóquio esperançoso desse dois, mas observo o movimento da criançada. A mais nova, sentada no banco de trás da poltrona do pai, move um brinquedo ao ar fazendo movimentos que se dispersam. O pequeno objeto transforma-se num  poderoso avião de guerra cuspindo fogo e eliminando seus inimigos. Seus olhos acompanham os movimentos daquela caixinha num transe enigmático cujo gozo só ele poderia explicar. O avião desce do alto das nuvens e num só movimento passa raspando no solo arborizado e volta triunfante após derrotar um batalhão de gente lá embaixo.

 

-         Nice, algumas pessoas falaram que as vagas já foram preenchidas por uns primos do gerente.

 

-         Mas homem, talvez é mentira deles! Pura fofoca!

 

-         Ah!... não sei não.

 

O avião já detonou todos os seus inimigos. A menina, sentada à frente da mãe, gira e gira sua boneca loira. Por que não se fabricam mais bonecas morenas e negras? Sinto vontade de ir brincar com ela e pedir-lhe o pente para pentear seu brinquedo que seguro em seus dedos transforma-se numa fada, na mamãe, nela mesma e em toda espécie de gente que pulula essa cabecinha tão pequenina. De vez por outra solta um gritinho fininho de êxtase por representar ali seu mundo, seus sentimentos e suas emoções. Definitivamente os alienígenas não gostam de crianças e seus badulaques eletrônicos não funcionam nessas criaturinhas.

 

-         Se você for aprovado, Zé, quanto vai ganhar?

 

-         Está escrito aqui na folha. Olha só... bem aqui debaixo dessas letrinhas miúdas.

 

-         É...

 

O filho mais velho vai sentado na poltrona à frente da menina e sua posição já denuncia um ser que se não recebeu o chip alienígena, foi atingido por um de seus raios paralisadores. Sua expressão carrega um cansaço, um olhar lânguido e desinteressado. Não leva brinquedo nenhum. Fica sentado quieto e só mexe a cabeça de vez em quando para olhar algum movimento nas ruas que cruzamos. Deve ter uns dez a doze anos. De repente ele me olha e abaixamos a cabeça ao mesmo tempo. Fico imóvel por um momento e olho de soslaio e percebo que ele também olha. Parece que quer comunicar algo, dizer que sofre, dizer que é pequeno, mas já sente pelo pai desempregado, dizer que sua roupa está pequena e apertada, que gostaria de voar, de estar dentro do avião do seu irmão. Sua mente vaga entre o brinquedo do irmão e a própria situação.  Olho de novo e ele abaixa a cabeça e, rapidamente, vira-se para o pai e pergunta:

 

-         Pai, o senhor vai comprar meu caderno?

 

-         Oh! Filho... vai depender dessa ficha que fiz na empresa. Se o papai conseguir o trabalho é a primeira coisa que eu vou comprar.

 

Como um simples papel pode significar tanto...

 

Alguns descem, outros sobem. Eu bem que poderia contar os pontos até chegar o meu, mas cada ponto é mais feio que o outro e a feiúra do ponto toma conta das pessoas que esperam debaixo deles. Tenho a impressão que os pontos são terminais eletromagnéticos intergaláctico dos seres que nos comandam. Sobe um casal de namorados.

 

-         Vou comprar também seu vestido, sabe? Aquele que você viu na loja naquele dia, lembra?

 

-         Oh Zé, não precisa disso. Pense primeiro nas crianças.

 

-         Quero fazer nosso muro e terminar de rebocar o barraco...

 

A mulher coça a cabeça. Concordo com ela... o Zé está sonhando! Delirando! Preciso ir até ele e dizer bem alto: acorda Zé! Mas me faltam as forças para levantar e ir ali trazer esse homem à realidade. Paro, abaixo a cabeça, olho para o menino e ele está me olhando. Tiro os olhos rapidamente porque seus olhos desafiadores parecem dizer: Não tire meu pai de sua felicidade! De seu gozo, mesmo que momentâneo.

 

O casal de namorados não ficou muito tempo mas desceu no ponto seguinte. Sua presença foi incômoda para muitos e o campo de força que paira sobre nossas cabeças talvez tenha os expelido para longe. Para longe os sonhadores! E, como não poderia deixar de ser, o ônibus pára e o Zé desce com sua esposa e os filhos pelas mãos. Lá se vai a boneca, lá se vai o avião, lá se vai a esperança. Para onde eu não sei. Continuo minha jornada. Para onde também não sei.