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Os 90 anos do teatrólogo Otavinho Arantes

O trindadense Otavinho Arantes, nome singular do teatro em Goiás, estaria agora fazendo 90 anos de idade. Nasceu no Largo da Matriz da cidade do Divino Pai Eterno em 1922, filho de Otávio Batista Arantes e Maria Aurora da Conceição Arantes. Sua vida, dedicada às artes teatrais, encerrou-se tragicamente em 1991, aos 69 anos, num atropelamento em Brasília, onde estava lutando por verbas para sua AGT. A Agremiação Goiana de Teatro foi fundada por ele em 01 de maio de 1946.

 

Seu objetivo inicial era a difusão das artes cênicas em Goiás com a construção de um teatro e uma escola de arte dramática. Havia, no currículo dessa Agremiação, a leitura e encenações de peças, exposições, conferências e excursões. Em 1959, a AGT foi considerada Entidade de Utilidade Pública e os seus objetivos foram em grande maioria alcançados, mas tudo a custa de esforço, dificuldade e muitas lutas.

 

A Agremiação Goiana de Teatro desde sua fundação cumpriu rigorosamente o programa para o desenvolvimento do teatro em Goiás. De 1963 a 1978, teve excelente programação. Otavinho Arantes, sempre adiante de todo o projeto, desfiava as horas de sua existência em prol de uma atividade artística e a profissionalização das artes cênicas, o que era deveras difícil.

 

Com o término da construção do Inacabado a primeira peça encenada foi O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, que fez grande sucesso. Foram muitos os pedidos de ocupação do espaço que não tinha o destino comercial, mas as Companhias, os Grupos Teatrais do Rio de Janeiro, São Paulo e de outros Estados solicitaram o Teatro, a todo custo, para as suas encenações. Mesmo sem sujeitar a “vestir a roupa” de empresários, a AGT acabou por ceder e o Teatro e este viveu dias gloriosos, pisando o seu palco, os nomes mais famosos da ribalta brasileira.

 

O Cine Teatro Goiânia inaugurado em 1942, exatamente há 70 anos, pela Cia. Eva Todor, com a peça “Colégio Interno”, de Luiz Iglésias, já se tinha transformado num autentico “poeira”. Otavinho Arantes solicitava dos governadores que restaurassem o Cine Teatro, com instalações técnicas completas, dignas das melhores casas de espetáculos do país. Coube ao Governador Irapuan Costa Júnior essa façanha que, num gesto digno, resolveu levar avante a empreitada. E, a 15 de março de 1978, inaugurava-se o novo Teatro Goiânia.

 

Fundada por Otavinho Arantes, a AGT começou no Liceu, onde um grupo de alunos tentava ensaiar uma peça. Tratava-se de Maria Cachucha, de Joracy Camargo. O movimento frustrou-se. Numa daquelas reuniões Otavinho Arantes apareceu já com uma peça copiada e fez a distribuição dos papeis. A peça era O Príncipe Encantado, de Luiz Leandro. Esta, com êxito, foi ensaiada e encenada.

 

A seguir, Otavinho arregimentou novo elenco entre os alunos do Liceu e ensaiou Pertinho do Céu, peça de José Wanderley e Mário Lago. Este era o embrião da AGT, formada inicialmente com os nomes de Paulo dos Reis, Luzia Coelho, Otavinho Arantes, e José Prates. Organizada a instituição, seus estatutos foram aprovados no ano de 1949.

 

Depois da primeira peça, a AGT teve uma infinidade de outras encenadas; foram feitas as mais diferentes experiências; encenou-se os mais diferentes gêneros; autores nacionais e estrangeiros foram representados.

 

Peças encenadas pela AGT: “Pertinho do Céu” de Mário Lago e José Wanderley; “O inimigo íntimo” de Pacheco Filho; “Sinhá moça chorou” de Ernani Fornári; “Terra Natal” de Oduvaldo Viana; “Joaninha Buscapé” de Luiz Iglesias; “A Mulher do Padeiro” de Giono; “Carlota Joaquina” de R. Magalhães Junior; “A cigana me enganou” de Paulo Magalhães; “Antígona” de Sófocles; “O Pedido de Casamento” de Tchecov; “O Banquete” de Lúcia Benedetti; “Massacre” de Roblès; “Luz de Gás” de Patrick Hamilton; “Avatar” de Genolino Amado; “Lampião” de Raquel de Queiroz; “O Discípulo do Diabo” de Bernard Shaw; “O Idiota” de Dostoiewski, “Pigmalião” de Bernard Shaw, “Édipo Rei” de Sófocles”, “O homem e as armas” de Bernard Shaw, “A canção dentro do pão” de R. Magalhães Junior; “O auto da Compadecida”, “Eles não usam black – Tie” de Gianfrancesco Guarnieri; “Gringoire” de Banville; “O Pagador de Promessas” de Dias Gomes; “A Carteira” de Mirbeau; “Escurial” de Gelderode; “Macbeth” de Shakespeare; “Tempo de Amar” de Lena Castelo Branco Ferreira Costa; “História do Zoológico” de Edward Albee; “Bodas de sangue” de Garcia Lorca; “Auto da Compadecida” (2ª versão), “A margem da vida” de Tenessee Williams e “Condenado ao Inferno” de Renné de Obaldia, entre outras.

 

                     O Teatro Inacabado nasceu do ideal de Otavinho Arantes de construir para Goiânia uma casa de espetáculos que servisse para apresentação de peças e de local para sede da AGT. De uma sala improvisada no Museu Estadual, cedida pelo Professor Zoroastro Artiaga, depois desalojados pela nova direção; a seguir uma sala no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, alojados pelo Dr. Colemar Natal e Silva, a AGT foi uma instituição sofredora. Depois, uma nova sede na Avenida Anhanguera próxima ao Teatro Goiânia. Nas diversas rifas, bingos, promoções, foram sendo levantadas quantias de dinheiro para a construção do Teatro Inacabado. Mas tudo foi, a partir do terreno doado, uma grande luta.

 

No referido terreno havia uma invasão. Otavinho procurou o invasor e propôs-lhe uma solução amigável, dando-lhe, em troca, dois lotes de terra, que lhe foram oferecidos pelo Departamento de Terras do Estado, para que o problema fosse resolvido. Foi necessário, então, que se produzissem uma Ação de Imissão de Posse que, quatro anos depois foi ganha pela Agremiação Goiana de Teatro. Tudo depois de desgastes e dificuldades. Assim que o invasor deixou o lote, Otavinho mandou limpar, imediatamente o terreno e poucos dias após, eram iniciados os trabalhos de fundação do futuro Teatro. Tal fato ocorreu nos primeiros dias de 1960, há mais de 50 anos.

 

Outro problema é que o terreno naquele tempo era alagadiço e foi necessário um gasto extra para drená-lo e levar toda a água da mina que ali corria para o córrego Capim Puba. Nas Fundações, foram aplicadas 15 estacas de concreto e as demais de aroeira, já que não dispunha a AGT do numerário suficiente para o gasto total com o concreto. Todas essas madeiras foram conseguidas na base de doação, depois de sacrifícios imensuráveis.

 

Em 02 de fevereiro de 1963 foi sua estréia. A primeira peça era ali apresentada sem nenhuma condição de conforto para os espectadores que, na estréia, se acomodaram em cadeiras que se distribuíram no salão, e sobre tábuas acomodadas empilhadas de tijolos. Tudo de forma ainda carente e improvisada.

 

Numa reforma, anos depois, por necessidade, foi providenciada a mudança de seu telhado que era de alumínio, para telhas de amianto. E um operário, descuidando-se, deixou cair solda elétrica na ponta do pano de boca do palco do Teatro. Foi um incêndio apavorante. No pensamento atordoado de Otavinho Arantes era o fim.

 

O grande baluarte das artes teatrais foi auxiliado pelo então governador e seu xará, Otávio Lage e por uma comissão de professores da UFG. Com mais sacrifícios e agruras, empréstimos e lutas, o teatro foi reconstruído. Em 05 de julho de 1969, data do Batismo Cultural de Goiânia, o Inacabado foi reinaugurado. Este funcionou com momentos de alegria e somados a outros de muita tristeza pelo descaso pelo teatro, em que Otavinho lutou com afinco até 1991.

 

Depois de sua morte o teatro Inacabado ficou abandonado. Toda a população acompanhou alarmada a tristeza do fim do local. Ali se tornou espaço de refúgio de bandidos e usuários de drogas, com grande perigo social. Em 1993 um grupo de artistas tentou reviver o Inacabado, mas foi sem sucesso. O mesmo foi lacrado e abandonado novamente.

 

Só recentemente, em 2010, após quase 18 anos sem uso, o Teatro Inacabado retornou ao cenário de nosso mundo cultural, restaurado conforme projeto da AGEPEL. Administrado pela Associação Cultural Otavinho Arantes, o mesmo se apresenta novo, com possibilidades de continuar a ser o que o admirável pioneiro trindadense um dia sonhou. Pelos 90 anos de Otavinho, um pensamento de paz e luz!

 

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado).  Professor Universitário da Faculdade Aphonsiano de Trindade.  Mestre em Literatura pela UFG. Mestrando em Geografia pela UFG. Pesquisador. bentofleury@hotmail.com