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O PAPA EM CUBA

Nos meus (longos) anos de vida, muitos fatos inesperados e inusitados presenciei, ou deles tomei conhecimento. Da chegada do homem à lua à queda do Muro de Berlim; do primeiro transplante de coração ao transporte de dólares na cueca de um político. Surpresas e bizarrices não têm faltado, o que não deixa de ser divertido.

 

Vejo agora o noticiário da chegada de Bento XVI a Cuba e fico a pensar: quando imaginei que iria ver o chefe supremo da igreja católica visitar a ilha de Fidel Castro, último reduto do regime comunista no ocidente, e, como tal, ateu e avesso a credos e religiões?

 

As imagens são claras: ali está o velho Papa, vestido de branco, em visita apostólica a parte do seu rebanho que, por tantos anos, teria minguado à falta da simples tolerância das autoridades locais. Por três gerações, prevaleceu em Cuba a política estatal de desmonte das antigas tradições religiosas, herdadas com a cultura e a língua hispânicas, mas abjuradas e até mesmo perseguidas em nome de um socialismo que foi utópico e tornou-se perverso, porque eivado de crueldade e de intolerância.

 

Associando a sabedoria milenar da Igreja às sutilezas da diplomacia, Bento XVI – com a autoridade de chefe espiritual de milhões de católicos - concedeu entrevista a mídia internacional, quando afirmou, com todas as letras, que o regime de Fidel Castro fracassou. Não foi contestado. Ao desembarcar em Havana, receberam-no autoridades e multidões de fiéis que o aplaudiam. Confesso que a presença destes causou-me espanto maior do que a postura contrita do presidente (pró-forma) Raul Castro, durante a missa campal celebrada para milhares de católicos cubanos redivivos. E eu achando que eles não existiam mais!

 

A mesma sensação de incredulidade e surpresa acometeu-me quando visitei algumas cidades da Rússia, onde encontrei multidões nas igrejas, as mulheres de véu, os homens rezando, todos em recolhimento e oração. Naquele momento, como agora, veio-me à lembrança o empenho de políticos e educadores, em nome da pureza ideológica do partido dominante, irmanados no esforço de erradicar Deus da alma e da mente de crianças e adolescentes, numa pedagogia voltada para o materialismo e o ateísmo. Não obstante, velhas crenças e velhos ritos ressurgiram das cinzas; visitar a Praça Vermelha, nos dias de hoje, é também conhecer as belíssimas igrejas ortodoxas restauradas que ali estão, como restaurada tem sido a fé do povo russo.

 

Voltando à visita do Papa Bento XVI a Cuba, à programação não faltou um encontro do Papa com o Comandante, como é conhecido Fidel Castro. Olhando-os, lembrei-me do revolucionário idealista que liderou os sonhos dos combatentes da Sierra Maestra, lutando contra o tirano Fulgêncio Batista e tudo o que ele representava: violência, corrupção, nepotismo, sujeição abjeta ao que havia de pior no imperialismo norte-americano.

 

Em 1960, Goiânia quase recebeu a visita de Fidel Castro, para paraninfar a turma de concluintes da Faculdade de Direito de Goiás. A coisa começou como uma brincadeira e ganhou adesões, quando foi lembrada a possibilidade de os formandos visitarem Cuba, com passagem e estadia pagas. Um pequeno grupo foi destacado para levar pessoalmente o convite ao Comandante, que aceitou, assegurando que estaria presente à solenidade.

 

Nesse meio tempo, Fidel Castro e seus companheiros assumiram a ideologia marxista-leninista, no contexto da Guerra Fria que caminhava para sua fase mais aguda. De outra parte, a política brasileira começava a entrar em crise, com as excentricidades do Presidente Jãnio Quadros que, a cada dia, surpreendia o País com seus bilhetinhos e atitudes amalucadas. Em determinado momento, achou por bem condecorar o condottieri cubano, Che Guevara, com a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta comenda da República. Houve protestos, o barulho foi grande. Em Cuba, a situação era de incertezas; à última hora, Fidel desistiu de vir ao Brasil.

 

Sem receber qualquer aviso a respeito, no Cine-Teatro Goiânia os formandos, seus familiares, convidados e autoridades aguardavam a chegada da comissão que fora a Brasília receber e trazer o paraninfo. Eis que finalmente chegam: em lugar de Fidel, porém, viera representá-lo um dos combatentes de Sierra Maestra, Rolando Cubella.

 

Era um homem moço, alto, de feições bonitas, olhar direto e barba típica dos combatentes. Vestia uniforme militar cáqui e trazia condecorações ao peito. Tinha a voz clara e forte: falou em espanhol, pausadamente, fazendo-se entender pela dicção clara, mas também pela empatia que logo se estabeleceu entre o orador e a platéia. Discorreu sobre a sede de justiça que movera os revolucionários, tendo à frente Fidel Castro; expressou aos formandos votos de que cultivassem o direito como fonte e veículo de justiça, de modo a beneficiar os que dela mais necessitassem.

 

Foi aplaudido pelos presentes, de pé, por longos minutos. Tempos depois, correu a notícia de que Cubella se desentendera com Fidel Castro, aderira à oposição e saíra de Cuba. Também circularam boatos de que fora preso e julgado em Havana, sendo condenado ao “paredón”. Mas escapou: consta que, por uma dessas incongruências emocionais peculiares aos latino-americanos, Fidel enviava livros ao ex-compaheiro enquanto ele esteve na prisão. O ex-herói conseguiu exilar-se na Espanha. Bem longe do paraíso socialista cubano.

 

 (Publicado no  jornal “Diário da Manhã” de Goiânia em 03 de abril de 2012)