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A RÃ NA PANELA

A historinha é conhecida: era uma vez uma rã que, feliz da vida, nadava na água fria de uma panela. Eis que alguém acendeu o fogo em baixo. A água começou a aquecer de forma quase imperceptível; a rã gostou e deixou-se ficar, curtindo a delícia que era o calorzinho a espalhar-se por todo o líquido e pelo seu corpo também. Naquela modorra, quase dormiu – enquanto a água se tornava mais e mais quente. Só despertou quando sentiu a dor das queimaduras. Quis pular fora, mas as pernas semi-anestesiadas não obedeceram ao comando de sua vontade.  Logo havia bolhas de fervura; a rã ainda se agitou, tentou vir à superfície, salvar-se. Mas o tempo se esgotara para qualquer reação efetiva – debilitada, ela morreu cozida, vítima do ambiente que antes lhe parecera tão acolhedor.

 

A analogia é simples: a sociedade é nosso “habitat” e nela vivemos normalmente, quando tudo parece simples, rotineiro. Ao se anunciarem mudanças – de temperatura ou de ambiência – não podemos (nem devemos) aceitá-las acriticamente, o comodismo nos levando a achar que são inócuas, quando não louváveis.

 

Quem conhece razoavelmente a historia do Brasil sabe que sempre houve escândalos e roubalheiras na política. Como os há em qualquer sociedade ou país, no Ocidente como no Oriente. Ocorre, porém, que entre nós, nos últimos tempos, praticamente deixou de haver o contraponto da virtude fazendo face ao vício. Em outras palavras: cresceu em escala geométrica o número dos políticos envolvidos em crimes e falcatruas, sem que houvesse crescido, ao menos em escala aritmética, o número dos chamados sejam honestos e respeitáveis.

 

Fala-se muito em decoro parlamentar. “Decoro” é vocábulo que vem do latim: “decorus”. Invoca palavras antigas, talvez antiquadas: decência, brio, dignidade, nobreza; e virtudes que seriam (seriam?) igualmente arcaicas: pundonor, honradez, respeito de si próprio. Tais expressões são pouco usadas no nosso cotidiano, até porque quem as tem como bússolas de vida não sente necessidade de invocá-las – preferindo praticá-las. Em verdade, indicam comportamentos do dia-a-dia, algo como uma segunda natureza dos homens e mulheres de bem.

 

Quando se trata de cidadãos ou cidadãs guindados aos altos postos – em cargos municipais, estaduais ou federais – o decoro é condição sine qua non para assumi-los. Inconcebível será que homens e mulheres, no exercício de funções públicas, apresentem-se como figuras caricatas, empreguem linguagem chula ou exibam procedimentos que contradigam as virtudes republicanas. Exatamente aquelas que estão implícitas no conceito de decoro.   

 

Há mais de meio século tenho exercitado o direito de votar, e o tenho feito de forma consciente e crítica. Quase sempre, optei por candidatos da oposição; claro está que fui voto vencido na maior parte das vezes. Fazendo um balanço das satisfações e das decepções que me proporcionaram meus poucos “eleitos”, confesso que estas foram bem mais numerosas do que aquelas – tanto em eleições minoritárias, como majoritárias.

 

Assim foi com Jânio Quadros, talvez a mais amarga das decepções. Por artes do marketing eleitoral (que apenas engatinhava) sua imagem de probidade e honestidade projetou-se pelo País afora, como promessa de seriedade nos altos escalões da República. Quase toda a gente ignorou os aspectos negativos (que pareciam menores) da sua personalidade: sanduíches de mortadela embrulhados em jornal; caspas no sobretudo seboso; ingestão exagerada de bebidas alcoólicas; instabilidade emocional e psicológica.

 

Visto no tempo e à distância, parece evidente que, em seu comportamento diário, ele afrontava o decoro que se exige da autoridade máxima do País. A maioria do eleitorado assim não o viu, ou não quis vê-lo. Deu no que deu: a maior crise da história brasileira, cujos desdobramentos ainda vivenciamos.

 

Nos dias de hoje, há todo um caldo de cultura destinado a anestesiar os eleitores: um canto de sereia que nos embala, com a melodia das grandezas e das bondades de uma sociedade que seria feliz e prazerosa, e que alegremente se endivida para consumir. A água está morna. O povo – o povão, que somos nós - apenas percebe vagamente que a temperatura está subindo, com as labaredas de corrupção e da desfaçatez a aquecer o caldeirão da política, cheio de rãs semi-anestesiadas (por enquanto).

 

Quando levantar fervura – e começarem os problemas maiores, na economia em crise e na administração corrupta – o que acontecerá com as rãs? Pularão fora? Ou morrerão simbolicamente, aceitando que mais enganações as reduzam a avatares de um governo de oportunistas e desonestos, sem decoro e sem compostura?

 

Fica difícil esperar que a temperatura ambiente permaneça estável, se até mesmo entre os opositores que pareciam sérios constata-se a prática de tanta desfaçatez e tantos crimes. Diziam os antigos que quanto mais alto o degrau, maior o tombo. Esse de agora foi capaz de espatifar os santos de barro que nos iludiam com sua falsa oratória moralista. Vamos rezar para que as labaredas não se alastrem, nem derrame a água fervente da indignação - a materializar-se em revolução conduzida por um salvador da pátria, que já os tivemos tantos, ao mesmo tempo caricatos e trágicos.

 

 (publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia em 10 de abril de 2012)