image 1 image 2

DISCURSO DE POSSE DE LENA CASTELLO BRANCO FERREIRA DE FREITAS NA ACADEMIA GOIANA DE LETRAS

ACADEMIA GOIANA DE LETRAS

 SESSÃO MAGNA DE POSSE

ACADÊMICA  LENA CASTELLO BRANCO FERREIRA DE FREITAS

 

 Goiânia, 09 de junho de 2016

Ano Cultural Bariani Ortênsio

Senhora Presidente da Academia Goiana de Letras, Acadêmica Leda Selma de Alencar.

Ilustres integrantes da Mesa Diretora desta Sessão Magna.

Preclaros Acadêmicos e Acadêmicas.

Senhoras e Senhores, meus amados familiares.

 

Ao ser empossada na Academia Goiana de Letras, vejo essa distinção como um coroamento de vida, que já vai longa, pelo que proclamo meu reconhecimento, respeito e admiração aos imortais que me acolhem. Sejam, pois, de agradecimento as minhas primeiras palavras, com a certeza de que muito me esforçarei para corresponder às expectativas, dando o melhor de mim mesma à convivência, às tradições e às iniciativas desta Casa.

Foram longos os caminhos que me trouxeram a esta tribuna.

Cheguei a Goiás há 68 anos e aqui me fixei, dando início ao processo de goianização que culminou com o honroso título de Cidadã Goiana, a mim conferido pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. Agora reiterado, quando transponho os umbrais desta Casa.

Aqui adentrando, cabe-me ocupar a Cadeira no.  30, patroneada pelo poeta Demóstenes Cristino, mineiro de nascimento, mas radicado em Ipameri (GO). Formado em odontologia, exerceu também o jornalismo no O Ipameri e Ipameri-jornal, que congregavam as mais destacadas inteligências da região da Estrada de Ferro Goiás.   Colaborou, igualmente, com a revista Alterosa, de Belo Horizonte, bem como com periódicos do Triângulo Mineiro.

Em 1949, publicou seu primeiro livro de poemas, Musa bravia; em 1960,  Trovas – ambos bem recebidos pela crítica e pelos apreciadores da poesia. Para J. G. de Araújo Jorge, a leitura de seus “versos simples e espontâneos” revela “um poeta de feição antiga com espírito moderno”. No dizer de Joaquim Rosa, situando-se o vate “entre o parnaso e o modernismo”, em seus poemas estão presentes “forma, ideia, espontaneidade, humor, filosofia...”  Leo Lynce ressalta-lhe “a vigorosa sensibilidade”, e registra ser ele “o maior dos humoristas que temos tido”.

Para Gilberto Mendonça Teles

Demóstenes Cristino foi desses poetas para quem a poesia, além de sua grande funcionalidade lírica de escapismo e re-criação, se reveste também de uma tonalidade áspera, num processo de exteriorização crítica, através do qual o poeta responde aos múltiplos apelos da existência. Para isto, a melhor arma foi para ele a sátira, não a sátira pessoal, ofensiva, e sim aquela, mais universal, que o fazia rir de certos aspectos ridículos da vida (A Poesia em Goiás).

Tive acesso à poesia de Demóstenes Cristino pelas mãos de sua neta e divulgadora apaixonada, a poetisa Yeda Schmaltz, amiga e confreira da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.  Na obra do poeta mineiro/goiano – Musa bravia - predominam tons nostálgicos e saudosistas, mesclados à inspiração verde-amarela, como ressalta Coelho Vaz. Cerca de um terço do livro enfeixa “Versos humorísticos”, sendo “Raça” o mais apreciado deles, recitado em todo o Brasil, assim como em outros países lusófonos. Lembremos um exemplo da verve de Demóstenes Cristino: certa jovem aniversariante pediu-lhe que a presenteasse com um poema. No que foi atendida com bom humor: “Parabéns, querida amiga/com votos por seu futuro/mas quando eu me for não diga/ que é presente de...pão duro”.

 Sucedeu-o na Cadeira no. 30 o escritor César Baiocchi, cuja produção se diversifica em romance, conto e poesia. Natural da Cidade de Goiás graduou-se em medicina na Universidade Federal do Paraná. Recém-formado, passou a residir em São José do Cauiá, nesse estado, nova fronteira agrícola que se abria na década de 1950. Além de atuar como médico devotou-se a atividades culturais, inclusive ao teatro amador.

De sua vivência nesse mundo em transformação resultou o romance Corriola- Paraná – Brasil, testemunho de vida filtrado pela imaginação. Como lembra o acadêmico Licínio Leal Barbosa, em inspirado texto, o personagem central da narrativa é um médico – seria o alter ego de César Baiocchi? – espécie de guru daqueles “homens e mulheres simples, valorosos, crédulos, valentes, empenhados em construir um novo mundo” (Requiem para César Baiocchi).

Talvez herdando o espírito de seus antepassados – que vieram da Itália para o Brasil em busca de horizontes mais amplos – depois de realizado profissional e politicamente no norte paranaense (onde se consagrou como médico e elegeu-se vereador e suplente de deputado), César Baiocchi veio para Brasília, ainda em construção. Radicou-se na nova capital federal, onde continuou a praticar a medicina, especializando-se em psiquiatria Elegeu-se presidente da Associação dos Psiquiatras de Brasília; foi designado Presidente do Conselho de Cultura; participou de cursos e jornadas profissionais; ingressou na Sociedade Brasileira de Escritores Médicos; recebeu condecorações e distinções as mais elevadas.

Voltando a residir em Goiânia, César Baiocchi exerceu intensas atividades profissionais e empresariais. Em 1972, passou a integrar esta Academia Goiana de Letras. Por ocasião de sua posse, foi saudado com memorável discurso pelo único escritor goiano a ter assento na Academia Brasileira de Letras.  Para o duplamente imortal Bernardo Elis, o recém-publicado livro do novo confrade - Sete mulheres de trinta e um olho dágua - iria enriquecer Goiás

com histórias tiradas do viver urbano que agora começa a impor-se perante nós, como decorrência das primeira aglomerações urbanas de características universais. São os temas e os problemas ligados ao amor, ao sexo, às drogas alucinógenas, a episódios da vida médica. (...) [com o que] demonstra acurado domínio da técnica narrativa (In GALLI, Ubirajara. Cesar Baiocchi. Um médico muito além do divã).

Em outra faceta de sua personalidade polimorfa e inquieta, preocupado com a preservação do meio ambiente e voltado para iniciativas de interesse comunitário, criou a Fundação César Baiocchi – Acqua Vitae, cujo objetivo é “a valorização e a preservação da vida”. Como informa José Mendonça Teles no “Dicionário do escritor goiano”, ele dedicou-se, com sua Fundação, à consolidação do Polo de Turismo Ecológico, em Luis Alves, no rio Araguaia. Nesse novo cenário de luta, envolveu-se com as atividades da comunidade ribeirinha “voltadas para a estruturação de entidades civis organizadas e projetos de desenvolvimento da agricultura, piscicultura e silvicultura, dentro de preceitos de sustentabilidade econômica, social e ambiental”.

Em sua rica existência pautada por inteligência, sensibilidade, arrojo e idealismo, César Baiocchi desenvolveu intensa atividade literária – e produziu também poemas de rara sensibilidade, publicados em periódicos esparsos. Seus contos inspiravam-se, sobretudo, na vivência de espectador e partícipe da vida dos pioneiros e dos candangos, população adventícia, meio rural, meio urbana, sofrida e obstinada, quase sempre solitária na luta pela vida. Em outros momentos, as narrativas se voltam para personagens simples, enredadas nas complexidades do mundo atual – algo perplexas, algo perdidas, sempre vistas com simpatia e compaixão.

Dentre outros de sua autoria, citemos os livros: Mais um ponto ...depois de outros contos (1969); Sete mulheres de trinta e um olho d´água (1972); Boa ação e outros contos (2009); Quatro ondas do mar azul (2014). Obras que podem ser apreciadas por suas qualidades literárias e antropológicas, relatos que pulsam com a vida, os sonhos, as esperanças e a dura realidade do cotidiano em um mundo que se erguia do nada, nas solidões do Brasil interiorano.

O que nos leva a afirmar que a fronteira acaso existente entre a História e a Literatura é difusa em seus começos, e ainda bastante imprecisa nos dias atuais. Tanto uma, como a outra, têm por objetivo representar as experiências dos homens e suas inquietações, bem como responder às questões que são suscitadas a cada momento na trajetória da humanidade.

A curiosidade intelectual do ser humano leva-o a buscar a compreensão do mundo em que vive.

História e Literatura têm sua origem no interesse, que é universal, de conhecer relatos e racontos.  Na infância, privilegiam-se as histórias de fadas; entre os povos primitivos, entoam-se canções sobre mitos e deuses. Nas civilizações letradas, homens e mulheres deixam-se embevecer pelos relatos sobre os antepassados, assim como pelo enredo de gestas, fábulas, poemas, romances e textos teatrais.

Em um primeiro momento, os bardos evocaram lendas e heróis nacionais; dos poetas vieram os cantos sagrados, expressos na linguagem rítmica que consegue captar e transmitir a magia dos versos. Seguiu-se a narrativa em prosa, mais adequada para distinguir entre o mundo real e o imaginário, com vistas a separar as histórias da História. A prosa literária inicia-se com relatos sobre deuses e reis, que personificam valores da comunidade, tendo em vista a educação e a edificação das gentes.

Tanto poetas como prosadores cultivam a arte da palavra. Têm como produto final a “narrativa”, porque “narram”, recontam e falam sobre fatos e pessoas, sobre a realidade - uma realidade. Têm personagens, cenários, enredos e tramas, pelo que a tessitura histórica e a tessitura literária às vezes se confundem.

Claro está que existem especificidades que as singularizam, à História e à Literatura, e que as definem como saberes distintos. Entretanto, elas se aproximam no exercício comum da narrativa – “narrativa que se coloca no lugar da coisa acontecida, que é presentificação, que é uma representação” (Sandra Pesavento). Lembremos Paul Ricoeur: “a história é quase fictícia, no sentido da quase presença dos acontecimentos colocados diante dos olhos do leitor por uma narrativa”; enquanto a narrativa de ficção “é quase histórica”, na medida em que os acontecimentos irreais que relata são fatos passados para quem os coloca perante o leitor.

O historiador convive com a erudição, pois se utiliza de um instrumental teórico e fático que lhe permita estabelecer as correlações possíveis entre fatos diversos, de forma a revelar significados. De outra parte, “a literatura é produto da imaginação criadora, cujo meio específico é a palavra, e cuja finalidade é despertar no leitor o prazer estético” (Afrânio Coutinho).

Na atualidade, os grandes relatos históricos interpretativos entraram em declínio com a derrocada dos estados de bem-estar social e do socialismo real, dando lugar a uma sociedade mais individualista, em que se questiona o compromisso de pensá-la como um todo. No campo da história, as certezas foram substituídas pela dúvida e pela dispersão epistemológica - “Clio despedaçada?” - que enseja a revalorização dos atores sociais. Na história como na literatura, o sujeito recobrou importância.

Tais considerações vêm-me à mente neste momento marcante de minha vida, quando ingresso nesta Casa de Letras. Letras –  instrumentos poderosos que permitem a perpetuação da narrativa, tanto nas searas da Literatura, que diz respeito fundamentalmente a palavras, como no campo da História, que se nutre dos fatos e das personagens.

Trabalhando com pessoas reais na perspectiva do tempo, o historiador  subordina-se à disciplina das fontes e do método. O literato – sobretudo o romancista - inventa situações e personagens às quais atribui ações, pensamentos, sentimentos e palavras que parecerão reais ao leitor. “A atividade do romancista prolonga de certa forma a do historiador” – diz Charles Morazé -  porque exercita uma “tarefa de desmitificação”, qual seja, a de evocação do que seria a verdade.

Vista dessa perspectiva, a obra literária é um “tipo especial de fonte para o historiador – e o historiador um tipo especial de leitor da obra literária” (Pesavento). Ou, invocando Adorno: a literatura é historiografia inconsciente. Ao percorrer o texto literário, os olhos do historiador – olhos de Clio – podem enxergar mais longe. No exercício de seu ofício, ele elabora uma narrativa interpretativa do passado, com vistas à construção de versão coerente e aceitável do que teria acontecido em outro tempo. Tanto o romance, como o conto, a crônica, a poesia e o teatro poderão acrescentar algo mais ao já conhecido contexto histórico; pelo que, na literatura, o historiador vislumbrará subsídios que não encontra em outras fontes.

Como registro de sensibilidades que são contemporâneas do narrador, a literatura permite conhecê-las e resgatá-las, através da emotividade do prosador, do poeta, do teatrólogo. Na obra literária, o historiador procura a marca do tempo em que ela foi escrita; além do contexto e do fato, busca a humanidade da época, suas paixões e vibrações, bem como recapturar o sistema de valores, os conceitos e as ideias que pautam a vida das personagens e da sociedade na qual se inserem.

Minha presença nesta Academia dá-se quando é celebrado o Ano Cultural Bariani Ortêncio, homenagem a esse extraordinário personagem das nossas letras, folclorista, pesquisador e cronista, cuja obra se projeta além das fronteiras de Goiás. Ao homenageado, meus cumprimentos e admiração.

No convite para esta solenidade, sou distinguida com o epíteto de historiadora, que me é honrosamente atribuído pela ilustre Presidente, poetisa e cronista Leda Selma de Alencar.  Como visto, antecederam-me os pranteados Demóstenes Cristino e César Baiocchi.  Ambos cultores da palavra e da narrativa. Ambos, figuras de relevo na literatura que é feita em Goiás; ambos, testemunhas da sua época através da recriação estética. Na obra de ambos, a marca da sensibilidade e a marca do seu tempo.

A História de Goiás vem sendo escrita desde a primeira metade do século XIX e tem continuidade nos dias atuais, sempre de acordo com as ideias e correntes da historiografia em contínuo aggiornamento. É uma história que mergulha raízes no tempo de antes do achamento dos Goyazes – e, em grande parte, quase desconhecida ou ignorada pela História do Brasil semioficial, que ainda privilegia as regiões litorâneas.

É uma história permeada de beleza, de coragem, de criatividade, sobretudo de resistência. Resistência do nativo ao colonizador – e esta vem sendo reconhecida em sua dimensão dramática. Mas, também, resistência do colonizador à regressão cultural que o desafia e tende a esmagá-lo, na distância dos horizontes vastos, dos caminhos sem fim, dos dispersos aglomerados populacionais desse imenso arquipélago urbano que se formou na boca das minas, nos pousos de tropas, nos patrimônios e nas corrutelas.

Goiás como baluarte avançado da civilização no rumo do oeste – no preservar a língua portuguesa, no transmitir as orações e a ética do cristianismo, no forjar uma cultura plural e identificada com a cultura brasileira em permanente construção.    

Não me deterei – nem é a hora de fazê-lo – nas obras e nos autores da historiografia goiana, conhecidos dos ilustres titulares desta Casa, alguns dos quais também historiadores – como o foram, com brilhantismo, Colemar Natal e Silva e Zoroastro Artiaga.  Lembremos, porém, com Marc Bloch, que a história é filha do seu tempo. Seu objeto não é propriamente o passado, mas o homem, mais precisamente os homens no tempo. Sem nunca deixar de aliar o passado com presente, uma vez que as indagações do presente são o que fazem o historiador voltar-se para o passado.

Creio que muito haverá para fazermos juntos - com temas e personagens da História de Goiás, inesgotáveis e apaixonantes. Assim como apaixonante é a própria História em permanente processo de reelaboração, seja à luz de novos documentos, seja de novas ideias e teorias inovadoras. 

Sempre me pareceu instigante o apelo dos arquivos inexplorados que guardam a voz das eras passadas. Confesso-me motivada pelo desafio que representam – e espero ainda dispor de forças para continuar a trabalhar com eles, já agora na companhia dos confrades e confreiras desta Casa, inspirados pelos fastos e pela beleza da História de Goiás.

Seja esta minha profissão de fé e meu compromisso, em retribuição à generosidade com que me acolheu a gente goiana e, em particular, esta Academia Goiana de Letras.

A todos, muito obrigada pela presença , inclusive aos meus familiares – Floriano, companheiro de todas as horas; irmãos, filhos, noras, genros, netos e sobrinhos. E que Deus nos abençoe a todos nós.

 

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas