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ELEIÇÕES 2016

Acabei de cumprir meu dever cívico – como diria o Conselheiro Acácio, genial criação de Eça de Queiroz. E o fiz nessa tarde de calor sufocante, com as cigarras cantando e chamando a chuva que não vem.

Minha seção eleitoral fica em uma escola municipal,  pertinho de casa. A rua está coalhada de “santinhos” de candidatos a prefeito e a vereador, nem tão santos assim... O prédio é antigo, mas sólido, as salas razoavelmente iluminadas; mas tudo parece tão despojado e triste! Nem uma árvore, nem um canteiro de flores, nem quadras de esportes. Nem mesmo uma área coberta onde as crianças e os jovens possam conviver abrigados do sol e da chuva, jogar pingue-pongue e xadrez, brincar de esconde-esconde. A biblioteca é bem cuidada, mas exígua; não vejo sinais de laboratório de informática ou algo semelhante.

Dá uma tristeza pensar em quantos meninos e meninas convergem para ali, diariamente, em três exíguos turnos de funcionamento – e quão pouco lhes é oferecido naquele ambiente quase inóspito. Por melhores que sejam professores, diretores e administradores, como conseguirão motivar seus alunos para o estudo e despertar-lhes a sede de conhecimento, sem um mínimo de adequação da escola à realidade atual – quando o mundo está ao alcance das mãos das crianças, em aparelhinhos a cada dia mais avançados?!

Sou rapidamente atendida por duas jovens e uma senhora cordial; em poucos minutos digito meus votos e recebo o comprovante de comparecimen-to. Estou dispensada de fazê-lo há muitos anos; mas sou do tipo que insiste, não desiste. Tantas eleições passadas e tantos candidatos votados, ainda acredito que tudo venha a melhorar, e que nosso País encontrará seu caminho para a afirmação de uma sociedade mais justa e mais humana.

Olho em redor: esses são os eleitores da base da pirâmide, brasileiros anônimos da periferia e do interior, em suas roupas informais, sandálias de dedo, bermudas e camisetas cafonas. Sem falar nas crianças e nos cachorros que não podem faltar.

O que motivará tais pessoas ao votar? O parentesco ou a amizade com o candidato? As promessas que ele terá feito, em reuniões ou em conversas ao pé do ouvido? A maior parte dos que aqui estão não completaram sequer o curso fundamental: qual o nível de expectativa desses eleitores? Um emprego para si, para um filho ou sobrinho? A dispensa de uma multa do fisco? Uma casa no programa habitacional do município? Atendimento mais rápido, talvez um aparelho ortopédico no serviço de saúde?

Nessa eleição, os grandes problemas nacionais estão ausentes – como o estão no cotidiano dos brasileiros simples e lutadores. Ajuste fiscal – o que é isso? Corte de gastos do governo? Nem pensar! Receiam que tal resulte em redução de benefícios para os pobres do “povão” – pois para “eles”, para os ricos, nada falta nem jamais faltará!

Um travo de injustiça permeia as classes populares diante do noticiário cotidiano dos milhões roubados das empresas e dos cofres públicos. Milhões que já são bilhões, abocanhados por políticos e empresários notoriamente poderosos e ricos. De onde o sentimento nacional mais presente entre os votantes de hoje será o de que fomos todos tungados, ludibriados, escarnecidos e zombados por quem encenava estar resgatando da pobreza os menos favorecidos – e se locupletava, sem peias nem constrangimentos, com dinheiro afanado do povo.

Na fila, pessoas conversam e dão risadas, comentando a novidade de hoje: a aposentadoria relâmpago da ex-presidente Dilma Rousseff. Questionado, um senhor grisalho explicava: vinte e quatro horas depois de ser impichada, a ex-presidente foi aposentada pelo INSS, com o valor mais alto atualmente permitido.  Para que isso acontecesse, figurões agilizaram o processo – e tudo “dentro da lei”.

- Mas como? – pergunta uma senhora. O processo dela demorou só um dia? Faz dois anos que eu estou esperando a pensão do meu filho que já foi concedida pelo juiz, mas não é paga.

Logo outro conta de um amigo que está “encostado” e não consegue a perícia médica para se aposentar...e por aí vai, num rosário de casos lamentáveis.

A conversa continua animada; sem demora, todos estarão amigos, darão beijinhos no rosto ao se despedirem. Abençoado povo brasileiro! Em vez de apelar para a violência, ri-se dos malfeitores que o prejudicam. Com educação de melhor qualidade, logo estaremos no caminho certo: o da mudança pelo voto.  Para o que se faz necessário que os novos prefeitos entendam a urgência de melhorar a escola, o ensino, a carreira do magistério, a formação pessoal e profissional dos nossos jovens. Sem demagogia, sem populismo, sem falsas promessas.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 4 de outubro de 2016)

 

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas