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ESPERANÇA

 Chegou 2017 e, com ele, votos de Boas festas e Feliz Ano Novo. É bom que seja assim, depois de tantos sustos e percalços em 2016. Afinal, é costume dizer-se que a esperança é a última que morre - pelo que vale lembrar a lenda de Pandora, narrada por Hesíodo, poeta que viveu no século VIII antes de Cristo.

Tudo começou com Prometeu, que teria presenteado os homens com o fogo, assim possibilitando que dominassem a natureza. Divindade suprema do Olimpo, Zeus proibira tal generosidade - e castigou severamente o inditoso titã, mandando acorrentá-lo a um rochedo, aonde um abutre vinha comer-lhe o fígado que se regenerava a cada dia.

Não satisfeito, Zeus buscou outra maneira de vingar-se da desobediência e criou a primeira mulher, a belíssima Pandora, destinando-a a Epimeteu, irmão de Prometeu.  Antes de enviá-la à Terra, contudo, entregou-lhe uma caixa, recomendando que jamais a abrisse pois, caso desobedecesse, todo um conjunto de desgraças viria sobre os homens.

Pandora não resistiu à curiosidade: abriu a caixa e foram assim liberados os males do mundo, tais como a discórdia, as guerras e as doenças. Mas Pandora fechou-a, antes que a esperança pudesse sair. Com essa metáfora, os gregos explicitaram conceitos (e preconceitos) relacionados à natureza feminina, como a beleza e o poder de dissimulação e destruição da mulher.

Reativamente à esperança fica subentendido que ela seria também um mal, porquanto tem origem em um olhar destorcido (otimista?) da realidade objetiva. Outra interpretação possível é a de que a esperança continuou aprisionada, para que a ela recorressem os seres humanos em última instância, quando perseguidos ou vitimados pelos muitos males e sofrimentos que correm soltos por aí.
Nessa virada de ano, a vontade é raspar bem no fundo a caixa de Pandora e dela retirar a esperança, mesmo sem que se saiba exatamente seu formato e sua força.  Seria um vulto indistinto e informe, a acenar majestático, indicando os caminhos que deveremos seguir? Ou uma ave que nos alçaria aos céus da bem-aventurança? Ou teria a forma de uma planta, pequenina e tenra, que é preciso regar, adubar com carinho, torcer por cada broto que surge nos galhos que pouco e pouco se fortalecem? Quem sabe alguma especiaria miraculosa que nos trará força e sabedoria, discernimento e vitalidade para seguir em frente, a despeito de tudo?

Vejo na mídia a sequência de “viradas do ano”, celebradas nas maiores cidades brasileiras. Fogos de artifício enfeitam os céus tropicais, há luzes e música. As pessoas vestem-se de branco, levam flores para Iemanjá, formulam pedidos e votos recíprocos de feliz Ano Novo.

Nos palcos improvisados, astros e estrelas (para mim desconhecidos) apresentam-se com estranhas cabeleiras eriçadas, roupas chamativas, shorts mínimos e tatuagens mil: de dragões, estrelas e serpentes a signos talvez cabalísticos, talvez simplesmente horrendos. Não se canta, berra-se; não se usufrui da arte, exibe-se agressividade e vulgaridade. E a plateia aplaude, retorce-se, transpira, ergue os braços e agita-os em coreografias que parecem copiadas das danças primitivas, conforme visto em desenhos rupestres e sítios arqueológicos.

Diz-se que há uma catarse coletiva e que o povo tem direito ao lazer e gosta disso. Que é dever dos administradores propiciar tais momentos de descontração às massas, inclusive pagando cachês exorbitantes aos seus ídolos – ou seriam heróis da “soi disant” cultura popular? 

Um tanto à moda do Conselheiro Acácio, fico a me perguntar se não haveria outra maneira de festejar o Ano Novo e a esperança de melhores dias. No fundo, trata-se de um negócio bilionário, custeado pelos cofres públicos, nos quais não está sobrando dinheiro. Muita gente ganha milhões, na tradição populista que vem da antiga Roma: para o povo, panem et circensis - pão e circo, vale dizer, espetáculos.  Já os poderosos, estes preferem orgias e banquetes, que também não nos faltam e nem sempre são custeados pelos próprios anfitriões.

Findo o espetáculo, nas ruas e praças ficam toneladas de lixo, latas de cerveja, garrafas, canteiros pisoteados e regados com urina, papeletas de drogas, seringas, preservativos. Mas afirma-se que esta é a celebração do Ano Novo em sua roupagem mais moderna – reclamar do que?

Voltemos, pois, à esperança que tentamos resgatar da caixa de Pandora, neste primeiro dia do ano de 2017. Que a todos nós sejam concedidos os bens inestimáveis da saúde, da paz de espírito, da vida em condições de dignidade e bem estar.  E que ao nosso amado Brasil seja dado reencontrar o caminho do crescimento econômico e da ética na política, bem como na humana convivência social e familiar.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 03 de janeiro de 2017)

 

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas