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CODORNAS & LAGOSTINS

Na guerra dos cartões corporativos, aparecem com destaque os itens relativos à degustação de iguarias pelos maiorais da República.

Ninguém espera que na despensa do Palácio da Alvorada sejam estocados carne de segunda, pizzas semiprontas ou garrafões de Sangue de Boi. Faz parte da liturgia do poder consumir pratos refinados. Afinal, de que serviria enfrentar buchadas de bode, bombas de chimarrão, cafés requentados e maioneses se não houvesse compensadoras mordomias gustativas no final da campanha eleitoral?

Três mordomias estão entre as mais cobiçadas: moradias luxuosas, serviçais e serviços impecáveis, e comestíveis sofisticados. Em qualquer tempo e lugar, cenários e rituais marcam a distinção entre os que mandam e os que obedecem. Palácios são necessários à pompa que, presume-se, deve presidir o dia-a-dia de governantes. Assim, residências oficiais reúnem o que existe de melhor: da arquitetura à decoração, das obras de arte às alfaias domésticas. Viver em tais cenários será gratificante, mesmo para quem não conhece estilos, nem talheres de peixe.

No capítulo “serviçais e serviços”, a satisfação maior está no círculo de áulicos que se forma ao redor dos poderosos. Nessa corte, a subserviência e a bajulação dão o tom. Basta observar fotos em que é personagem central o presidente da República: são de veneração os gestos dos que o cercam e de puro enlevo os olhares e sorrisos.

Em português antigo, o vocábulo ucharia designava o órgão burocrático responsável pela despensa dos reis. Ao tempo de D. João VI, documentos registram que os gastos eram elevados: a corte portuguesa incluía centenas de nobres e serviçais, que consumiam do bom e do melhor à custa da Real Fazenda. Já os gastos com vestimentas, cabeleireiros e miudezas eram atendidos com verbas pessoais dos membros da família real, o que não se estranhava, dado o consenso de que, por direito divino, tinham eles o privilégio de ser mantidos pelos súditos.

Durante o Segundo Império, o austero Pedro II restringiu ao máximo tais prodigalidades, inclusive no que dizia respeito a si próprio. Para viajar ao exterior, contraia empréstimos em seu nome pessoal, a juros de mercado – e pagava suas próprias despesas e da comitiva que o acompanhava. Ah! Se a moda pega!

Veio a República, fundada no princípio da igualdade de todos perante a lei, os governantes passando (em tese) a ser servidores do povo. A transparência das ações governamentais inclui a prestação de contas e a fiscalização das despesas atendidas com recursos públicos, oriundos dos impostos e contribuições pagos pelos cidadãos.

Não há como entender, pois, a discussão que se trava em torno da divulgação dos gastos feitos com cartões corporativos, modalidade de adiantamento destinado a atender despesas urgentes ou imprevistas, de pequena monta. Como, por exemplo, a compra de combustível ou o conserto de um carro oficial em viagem.

Assim sendo, causam estranheza os milhões pagos com tais cartões. Pior ainda é a tese absurda de que divulgar tais gastos – sobretudo os da Presidência da República – comprometeria a Segurança Nacional! Como se o conhecimento geral de compras eventuais de alimentos, bebidas, combustíveis e outras, igualmente prosaicas, fossem por em risco as instituições republicanas ou a vida de autoridades e seus familiares.

Pode até ser que tão proibidas “revelações” se mostrassem o parto da montanha, como se vê da relação de gastos pertinentes à gestão do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Nesta, incluem-se codornas, lagostins e vinhos importados, de safras privilegiadas. Assinale-se que as codornas vieram do Rio de Janeiro, talvez porque inexistam em Brasília tão requintadas aves; ou não havia “chef” capaz de desossá-las a contento.

Há também um jantar completo, encomendado ao requintado Fasano e servido a mil quilômetros de distância, no Palácio da Alvorada. Não se diz como se fez o transporte das iguarias: no avião presidencial? Ou funcionários foram deslocados para trazê-las de São Paulo, em voo de carreira? Ou o próprio restaurante providenciou a remessa e incluiu tudo na conta? Dúvidas persistem: quem terão sido os convidados? Se não passarem de tiranetes de segunda categoria, menos aceitável terá sido a despesa. Se remanescentes da velha aristocracia europeia, abrandar-se-ão os critérios de julgamento?

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À guisa de conclusão: essa crônica foi publicada neste espaço, em 8.04.2008, quando o governo lulista - guardião da moralidade pública - empenhava-se em desmitificar a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Quase nove anos depois, no que diz respeito a iguarias funcionais, o presidente Michel Temer fez sustar a licitação para abastecer o avião presidencial, orçada em mais de um milhão de reais – e encabeçada pelo róseo sal do Himalaia.

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 10 de janeiro de 2017)

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas