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CELEIRO DO MUNDO

 A cada começo de ano, nos balanços que se fazem, vem sendo ressaltado o desempenho da agropecuária na economia brasileira. Mesmo ultimamente, quando a incompetência dos governos petistas nos levou à recessão e ao desemprego crescente, esse setor da economia se mantém em expansão.

A mídia destaca a safra recorde de quase 250 milhões de toneladas de grãos em 2016, tendo à frente a cana de açúcar, o café e a soja, dos quais somos os maiores produtores mundiais. Ultrapassamos o Canadá em produção agropastoril e estamos em terceiro lugar no ranking mundial – depois dos Estados Unidos e da União Europeia.

Vem de longa data a vocação para o ruralismo e o agrarismo que serviu de base à ocupação, ao povoamento e à fixação dos colonizadores portugueses e seus descendentes na América Meridional. Durante quase quatro séculos, as atividades agropastoris (a pastoril em menor escala) estiveram vinculadas à escravidão; talvez por isso, os proprietários rurais sejam malvistos por estudiosos, historiadores e ideólogos, que não se cansam de demonizá-los, a partir do rótulo de desalmados “coronéis”.

Como se daria, na prática, a formação de uma fazenda aqui mesmo, em Goiás, à época da corrida do ouro – ou seja, em meados do século XVIII? De algum modo, precisavam alimentar-se as multidões de aventureiros que acorriam em busca de pepitas ou de veios auríferos.

A terra era vasta e inculta - ao contrário do que acontecia em Portugal, “nesga misérrima de terra” à beira-mar plantada. O clima, diverso, sem as bem definidas quatro estações do ano; em alguns meses, o solo ressecado e gretado não permitia sequer o manejo da enxada. Inexistiam ferramentas, bois de tração, gado de leite, cavalos de sela e de lida; era preciso trazê-los de longe, de regiões anteriormente desbravadas, mais próximas do litoral.  Faltavam sementes e mudas: de arroz, de trigo, de cevada, de aveia, de feijão, de oliveira. O milho e a mandioca logo foram incorporados à dieta pobre do colonizador – bem como a carne de caça e as frutas nativas. Porcos, galinhas, patos e demais animais de terreiro eram raros e caros.

Cada fazenda ou sítio de criar tinha de bastar-se a si mesmo. Na produção, assim como no consumo frugal de alimentos, na iluminação à base de azeite e pavios torcidos à mão, ou velas de sebo fumarentas. Na saúde como na doença, era preciso improvisar, encontrar soluções, incorporar culturas e ensinamentos vindos do índio, do negro, do raizeiro, do pajé, do padre e do boticário, quando os havia por perto.

A distância entre o rancho ou casa da fazenda e a “rua” –corrutela, arraial ou vila – era vencida a pé ou no lombo de alimárias. Incentivo ou financiamento para produzir - nem pensar. Assistência técnica - simplesmente inexistia. Mas a cobrança de dízimos e impostos escorchantes esteve presente desde os dias iniciais da colonização.

O colono se instalava na terra baldia, só ou com a família que era sua mão de obra básica. Os mais abonados adquiriam escravos que, em Goiás, foram numerosos nas minas, mas escassos na agropecuária. Depois de estabelecido e feitas as roças para o gasto e para o comércio, o posseiro requeria uma sesmaria, que lhe seria (ou não) concedida provisoriamente pela autoridade local. E confirmada (ou não) pela magnanimidade real. Nesse meio tempo, havia trabalho a fazer – e muitos filhos para criar.

Afastados do convívio social, “roceiros” e “roceiras” persistiram, durante gerações, em suas atividades de rotina – apegados à  gleba, amando o chão que trabalhavam, cientes de que a propriedade da terra lhes conferia status e respeitabilidade. Na medida de suas limitações, transmitiram aos filhos e aos dependentes a herança da cultura ocidental e cristã, em sua versão portuguesa: a língua, a religião, o domínio precário da escrita, os códigos de ética e de moral, os costumes, a culinária, as histórias, os mitos, as lendas e parlendas.

Diante da omissão dos agentes públicos, assumiram funções políticas e judiciárias, tornaram-se árbitros de questões e alguns exorbitaram: tornaram-se grandes proprietários, enveredaram pelo mandonismo local e exerceram-no de forma autoritária, quando não truculenta.

O que não invalida o fato de que a grande maioria deles trabalhou de sol a sol, produziu alimentos e recolheu tributos, viveu de maneira espartana, sem conforto, sem luxo e sem amenidades – e foi o responsável pela formação da rede de povoamento e de socialização que, ainda hoje, mantém unido esse enorme e gigantesco país, de quem se diz que virá a ser o celeiro do mundo.

Com as devidas ressalvas, de que falaremos depois.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 17 de janeiro de 2017)

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas