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PENSANDO E ESCREVENDO

Antigamente, dizia-se escrever “ao correr da pena” – vale dizer, enquanto o autor escrevia com a pena molhada em tinta, as ideias iam fluindo, o raciocínio apurava-se e surgia o texto que chegaria ao leitor. Como não se usa mais a pena - nem mesmo a caneta – seria ao som das teclas do computador?

Pois é: pensando e escrevendo...

Com tantas décadas de vida, nunca me senti tão perplexa como diante da realidade que vivemos, neste 12 de fevereiro do ano da graça de 2017.  Não, não digo que estamos à beira do precipício, nem que resvalamos para dentro do buraco, nem que a sociedade entrou em colapso, nem que a política tem o (mau) cheiro de cloaca máxima.  O que me deixa angustiada não são as constatações, nem as denúncias, nem a corrupção desenfreada. O que me apavora é o sentido de impotência e de desesperança que está por toda a parte, sem que haja um rumo a seguir, uma liderança a apontar caminhos, ideias a dar significado ao mundo e à vida.

Lembro-me da Grande Guerra de 1939 a 1945. Eu era criança, mas de forma difusa conseguia captar a mensagem de que se lutava em defesa de um mundo no qual se assegurasse às pessoas os seus direitos individuais e coletivos. Muitos arriscavam a vida e outros morriam porque se acreditava ser necessário e meritório sacrificar-se pelo bem maior, qual seja o de garantir a permanência de uma filosofia de vida que tivesse como fulcro a liberdade e a democracia.

No pós-guerra e nas décadas seguintes, manteve-se, entre nós, a primazia de um regime constitucional que sobreviveu a duras penas, entre assaltos do populismo de esquerda e de direita, culminando com a crise instalada pela renúncia do presidente Jânio Quadros, em quem tanta esperança fora depositada. Amarga decepção de funestas consequências.

O mundo dividia-se: era o tempo da Guerra Fria. Nos anos 1950 e 1960, expandira-se vigorosamente o poder da União Soviética, quando o comunismo divulgava-se a si mesmo como o mais justo e eficiente dos sistemas de governo. Com peculiar vocação para o utopia – mesmo aquela forjada na mentira – boa parte da inteligentzia nacional privilegiava o marxismo como solução a ser adotada para salvação geral.

Durante os governos militares, tornou-se realidade a modernização do Brasil, do ponto de vista de administração e infraestrutura. Entretanto, na política e na economia, a aliança entre militares e tecnocratas não conseguiu vencer os desafios de uma sociedade desigual e majoritariamente ignorante. A volta dos civis ao poder deu início a período de “redemocratização” – tal como acontecera após o longo período de hegemonia getulista, que findou tragicamente.

Foram muitas as frustrações que a minha geração amargou: o arremedo de parlamentarismo de tão curta duração; a morte  trágica de Tancredo Neves; a transição de Sarney sob a pressão da plutocracia mineiro-paulista;  a eleição de Collor, o tragicômico caçador de  marajás apeado do poder ao qual chegara como esperança de renovação. 

Finalmente o longo consulado petista, iniciado com a fantasia de que um semi analfabeto, pela sua inteligência privilegiada, pela hombridade de operário sem mácula e pela intuição genial iria resgatar o Brasil das mazelas do atraso e do conservadorismo, remanescentes do coronelismo.

Deu no que deu: depois de navegar em águas mansas que reverberavam sonhos e ilusões coletivas, o ex-presidente Lula conseguiu eleger a Mãe do PAC – como a chamava, à inefável D. Dilma Vana Rousseff, que veio a ser a madrasta  de todos nós. Até porque referido Programa de Aceleração do Crescimento deu para traz e cresceu como rabo de cavalo. Resultado: desilusão, recessão, desemprego e desesperança.

Ao fim e ao cabo, chegamos ao impasse em que vivemos. Para usar a metáfora do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, vamos equilibrando em cima de uma pinguela frágil sobre um abismo tormentoso. Há que atravessar com cuidado, passo a passo, calculando riscos, vencendo o medo, torcendo para dar certo e chegar do outro lado.

Rezo para meus santos de devoção, respiro fundo – e sigo em frente, pois não há outro jeito. Ainda que fragilizada pela incerteza e pelo pavor, ouso perguntar a mim mesma: o que ou quem estará me aguardando além do perigo, das águas revoltas, do vento que balança o frágil madeiramento sobre o abismo aos meus pés?

E eis que entrevejo além alguns vultos sobejamente conhecidos, até porque têm estado presentes desde sempre, na condução e na fruição da política nacional: Sarney, Lobão, Barbalho, Calheiros, Moreira Franco, Temer...

Deus dos Céus!  Seria melhor desistir de tudo e pular da pinguela?

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 07 de fevereiro de 2017)

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas