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LEMBRANDO A TUCA

Em um desses livros empenhados em desmistificar personagens e fatos históricos, encontram-se pérolas raras de ignorância e má fé. Na obra – da qual foram comprados e distribuídos milhões de exemplares pelo MEC – afirma-se que a Princesa Isabel era “feia como a peste e estúpida como uma leguminosa”(?!). E mais: “Quem acredita que a escravidão negra acabou por causa da bondade de uma princesa branquinha, não vai achar também que a situação dos oprimidos de hoje só vai melhorar quando aparecer algum principezinho salvador?”.

Tanto pedantismo vem-me à lembrança nesse 13 de maio que antecedeu o Dia das Mães. E me traz a evocação de alguém que marcou meus dias de infância e juventude: a Tuca.

Chamava-se Benedita Francisca de Souza, mas nós a apelidamos de Pretinha – depois, Pituca e finalmente Tuca. Nós a obedecíamos e tomávamos a bênção, de manhã e à noite.  Como então se dizia, era preta retinta, de estatura média, corpo franzino, feiosa e carrancuda. Usava o cabelo preso em trancinhas e estava sempre limpa, com cheiro de sabonete. Até onde chegam minhas lembranças, vejo-a por perto de nós, os quatro irmãos – a quem ela devotava cuidados de mãe.

Tuca era filha do ex-feitor da fazenda, Seu Félix, casado com Siá Zefa. Eles viviam em um sítio que lhes foi cedido por meus avós, a meia légua da casa-sede. Ficava perto do poço da Passagem, onde gostávamos de mergulhar entre as flores que caíam na água cristalina. Saíamos cedo, com toalhas de banho sobre os ombros; seguíamos rindo e cantando, improvisando coreografias na estrada que se alongava entre palmeiras.

Chegando à Passagem, vestíamos camisolinhas de chita,  pulávamos do barranco e mergulhávamos na água gelada. Outras meninas – filhas e netas de agregados - apareciam do nada; a turma ficava mais animada, ríamos, dávamos caldos, pescávamos piabinhas que prendíamos em cofos de palha, mergulhados no riacho.

Repartíamos irmãmente a merenda que tínhamos levado. Ainda com fome, corríamos para a casa de Seu Félix e Siá Zefa, onde – alertados pela Tuca – eles já tinham assado beijus de tapioca e preparado cambicas de buriti ou de juçara. Num fogareiro, fritavam-se os peixinhos em óleo de babaçu; e os saboreávamos com farinha grossa.

Tuca nos acompanhava, cuidava em que nos enxugássemos direito, penteava nossos cabelos, ralhava quando corríamos sobre folhas e raízes – Você vai cair, menina!, ela advertia. Como não parássemos, recorria ao argumento supremo: “Vou contar para a Castelo”.

“Castelo” era minha mãe, apelido que lhe deram em função do sobrenome, no internato onde estudou. Como fossem amigas desde a infância, Tuca passou a chamá-la assim e o fez por toda a vida. Porque ela morou conosco até morrer.

Quando nos mudamos para o Sul, viemos de navio. Tuca nos acompanhou; ficamos no mesmo camarote. Um fato me marcou: no primeiro dia de viagem, à hora do almoço, foi-nos designada uma mesa perto do capitão de bordo. Tuca sentou-se conosco, muito empertigada e séria, orgulhosa porque sabia “comer com talher”, como dizia. Tinha maneiras impecáveis e nos corrigia sempre, para que não fizessem feio “as meninas da Castelo”.

Durante alguns anos, moramos no Rio de Janeiro; foi o tempo da adolescência e das paixonites. Ela era a confidente sempre disponível; mas queria saber o nome do príncipe encantado, conhecê-lo, e se já era ou seria doutor. Cadete ou tenente também eram bem vistos. Só que não podíamos ir para longe do portão, de onde ela nos vigiava.  Qualquer infração tinha o mesmo desfecho: de manhã cedinho, enquanto servia o café de meu pai, ela nos delatava para os bules e os pães, até que o Dr. Cyridião interrompia a leitura do jornal e perguntava: “O que foi mesmo que você disse, Benedita?” Adeus sonhos de autonomia juvenil!

Na medida em que ingressávamos na escola, cada um de nós tentou alfabetizar a Tuca. Ela aceitava sem muito entusiasmo; jamais aprendeu a ler. Entretanto, sua memória era ótima, sabia inumeráveis receitas de cor, era rendeira e bordadeira, ou seja, tinha excelente coordenação motora. Empolgada com a redemocratização após a deposição de Vargas, eu tentei convencê-la a tirar o título de eleitora. Simplesmente recusou-se, não via sentido nisso.

Ainda relativamente moça, teve um AVC e ficou com sequelas graves. Passamos a cuidar dela; da alimentação aos remédios e ao banho, nós nos revezávamos, mesmo quando hospitalizada. Morreu em um 7 de setembro; apagou, durante o sono. Foi como o fim de uma etapa em minha vida: nunca mais a alegre despreocupação! Que Deus a tenha.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 16 de maio de 2017)

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas