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A CONDIÇÃO FEMININA EM ROUSSEAU E AS CRÍTICAS DE MARY WOLLSTONECRAFT

Rousseau é conhecido como defensor da liberdade, atacando a crueldade dos fortes e poderosos contra a o infortúnio dos fracos e oprimidos. Defensor da natureza, ou da ordem natural, seu ataque se estende às desigualdades sociais e econômicas. E deve ser decepcionante para aqueles que se dedicam aos estudos da condição feminina verificar que o tema não parece ter sido uma das grandes preocupações de Rousseau, embora o mesmo não tenha esquecido de falar sobre o assunto. Aliás, para Kelly e Grace (2009) talvez dentre os grandes filósofos políticos, Rousseau tenha sido quem mais deu atenção às questões relacionadas à mulher. O presente texto tenta discutir isso, introduzindo a complexa problemáticaque aparece em sua obra. Complexa porque o autor não deixou de abordar a questão, porém o fez de forma poética e ambígua, como muitos outros de seu tempo também o fizeram. Por um lado Rousseau deixa claro que a política real deve ser papel do homem, restando apenas o comportamento virtuoso para as mulheres; Por outro, fica subtendido nos seus escritos que a mulher acaba revertendo a situação e protagoniza o cenário, se consideramos que é Sofia quem governa o Emílio ou Julie a real governanta da Comunidade de Clarens. Além do mais, não podemos esquecer o fato de o autor ter elogiado enfaticamente o papel das mulheres nas conquistas de Esparta e Roma, como a que aparece logo do início do Emílio, sobre a mulher que louvou a vitória, mesmo tendo seus cinco filhos mortos na batalha. “Eis a cidadã”, diz Rousseau (1973, p. 13).

No ambiente dos philosphes esse parecia ser um tema que os mesmos evitavam enfrentar e deixar sua opinião bem clara. Por exemplo, no verbete [mulher] da Enciclopédia, o longo e nebuloso texto escrito pelo dramaturgo Desmahis[1] exalta a beleza da mulher, sua ternura, e a superioridade de seus encantos, mas limita-se a comentar as desventuras de algumas figuras femininas da literatura, para encerrar com uma visão tradicional de mulher-mãe consagrada às virtudes domésticas. Outros, porém, chegaram a criticara perspectiva da mulher-objeto, como o fez Diderot, na obra Sur les femmes, na qual chega a afirmar que se fosse legislador, faria tudo para compensar seus males e retirá-las de sua escravidão (DIDEROT,1919); além do polêmico texto[2] do jovem Antoine Léonard Thomas, apresentado na Academia, em 1771, e criticado pelo próprio Diderot e a ambiciosa Madame D’Epinay.[3]Mas o número desses era insignificante, e quase todos, como Diderot, limitavam-se a lampejos críticos, comentários fugazes e declarações bem intencionadas, sem, contudo, um tratado sistemático de defesa da mulher. Thomas criticou a “escravidão doméstica da mulher” (1991, p. 61), por exemplo, mas afirmou que as mulheres são incapazes de sentimentos universais e menos sentimentos de justiça. No fundo, parece que todos concordavam com John Gregory (1724-1773), o qual escreveu um pequeno texto orientando suas filhas (A father’s legacy to his daughters)[4] a serem amáveis, piedosas, humildes e a possuir todas as virtudes a fim de arrumar um bom casamento. Por isso não dá para concordar com Demrosch (2007) o qual afirma na introdução de sua obra (Jean-Jacques Rousseau: restless genius) que Rousseau endossou uma visão de subserviência feminina que já estava ultrapassado no seu tempo.  Um dos exemplos disso é que o livro do Dr. Gregory foi uma das obras mais populares do século XVIII, com bastante sucesso ainda no século XIX, tanto na Inglaterra como na França, bem como em toda a Europa.

Um ataque mais contundente e panfletário veio de fora do mundo parisiense ou do grupo dos iluministas, ou seja, veio da filósofa inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797), a precursora do feminismo que declarou guerra ao Dr. Gregory e indignou-se com Rousseau. A “avó de Frenkenstein”[5] criticou o iluminismo francês por seu paradoxo de defender a igualdade e, ao mesmo tempo, testemunhar passivamente a desigualdade entre os gêneros, tal como, segundo ela, o fez Rousseau. Não tenho conhecimento se houve uma interação entre Rousseau e a filósofa inglesa, mas certamente que sua crítica talvez tenha agravado a síndrome de perseguição que Rousseau alimentou, sobretudo em seus últimos dias de vida. Mais do que isso, o tema ganhou uma repercussão que até hoje o discutimose passou a figurar no trabalho das feministas. Tanto que Lynda Lange ao organizar o livro Feminist interpretations of Jean-Jacques Rousseau (2002) diz na introdução que o “pior pesadelo de Rousseau” é ter um grupo de mulheres acadêmicas discutindo sua obra.  E além da Madame d’Epinay, com o seu texto Les conversations d’Emilie, onde sustenta a igualdade intelectual entre os sexos, Wollstonecraft foi indiscutivelmente a pioneira dessa corrente.

Mary Wollstonecraft (1759-1797) foi escritora e filósofa, conhecida defensora dos direitos das mulheres. Como estudiosa da Revolução Francesa, centrou sua leitura nos nomes que direta ou indiretamente influenciaram o movimento. A influência do iluminismo sobre seu pensamento não a impediu de tecer críticas contundentes sobre as posições de Diderot, as quais considerou ainda paternalistas; contra a obra de John Gregory, em seu A father’s legacy to his daughters,cujo conteúdo está cheio de conselhos para fazer as mulheres amáveis; e, por fim, voltou-setambém contra Rousseau, cujo nome aparece ao longa da obra A vindication of the rights of woman (A reinvidicação dos direitos da mulher – publicado em 1792). Sua leitura de Rousseau é bastante crítica e em quase todas as obras o nome do filósofo genebrino é citado como referência de alguém que pensou somente na educação do homem, negligenciando a educação da mulher e seu papel político na sociedade de então. Principalmente no livro A vindication of the rights of woman, Wollstonecraft interpreta que a educação apresentada no Emílio é um plano específico para o homem, e não para a mulher – a qual deve passar por apenas um treino a fim de que seja agradável aos homens. A filósofo defende veementemente que não há diferença entre o homem e a mulher, a não ser na forma como são educados – opinião compartilhada por Madame d’Epinay, para quem a mulher é um ser de cultura inteiramente moldado pela educação.

Nas minhas análises, procuro defender que, embora a perspectiva rousseauniana aparentemente não possa fugir muito dessa lógica, há aí uma má interpretação do pensamento de Rousseau por parte da filósofa inglesa. A condição feminina em Rousseau não é a das melhores, porém no conjunto de sua obra pode-se prospectar um profundo respeito pela mulher e a crença de que a educação como formação humana pode ser estendida a todos, independente de sexo. Em minha opinião houve uma leitura apressada do pensamento de Rousseau por parte da filósofa e que malgrado a visão tradicional própria do século XVIII, qual seja a de sujeição da mulher, a da educação para os trabalhos domésticos etc. presentes nos escritos de Rousseau, alguns trechos do Emílio e até de outras obras, como a Júlia ou a Nova Heloísa, podem lançar novas luzes e revelar um filósofo que foi além de seu tempo e que só não militou a causa – tal como o fez Wollstonecraft, foi porque sua filosofia é a da condição humana e seu plano de formação é para o “homem” no sentido de ser humano e não de macho.

Embora muitos dos leitores de Rousseau, entre eles eu me incluo, entendem que a defesa da liberdade e os ataques à desigualdade que se encontram na obra rousseauniana dizem respeito ao ser humano como um todo é não somente ao masculino, não ficou fácil sustentar essa posição após a publicação e divulgação dos escritos de Wollstonecraft. Ou seja, ficou complicado defender Rousseau na questão aqui anunciada, pois à primeira vista o que nos parece em seu ponto de vista é que indubitavelmente a condição da mulher é de total sujeição ao homem, restrição ao ambiente doméstico e nenhuma participação político-social. Principalmente quando nos deparamos com passagens em sua obra maior de formação humana, o Emílio, que deixam claro que a educação do jovem Emílio está voltada para que ele seja mestre de si mesmo, independente e dono de seu destino; enquanto que Sofia, a esposa, parece destinada a uma vida de submissão, frivolidades e aparência. Há trechos nos quais Rousseau tece comentários sobre a educação de Sofia e chega a dizer que ela aprendeu os “trabalhos de seu sexo” (ROUSSEAU, 1973, p. 473); deve “gozar de pouca liberdade” (Id. Ibid. p. 430); e que as mulheres “sejam modestas e saibam cuidar do lar” (Id. Ibid. p. 434).

            Entretanto, ao mesmo tempo que nos deparamos com trechos que poderíamos chamar de machistas, encontramos outros que nos fazem pensar o contrário, como o que se segue:

A relação social dos sexos é admirável. Dessa sociedade resulta uma pessoa moral de que a mulher é o olho e o homem o braço, mas com tal dependência um do outro, que é com o homem que a mulher aprende o que é preciso ver, e com a mulher que o homem aprende o que é preciso fazer. Se a mulher pudesse remontar tanto quanto ela o espírito dos pormenores, sempre independentes um do outro, viveriam numa eterno discórdia e sua associação não poderia subsistir. Mas na harmonia que reina entre ambos tudo tende a um fim comum; não se sabe quem mais se dedica; cada qual segue o impulso do outro; cada qual obedece e ambos são senhores. (Id. Ibid. p. 439).

Mas antes de aprofundar nessa questão, vamos às críticas elaboradas pela filósofa inglesa. Seu trajeto de vida teve início no proletariado inglês quando, filha e neta de tecelões, conseguiu estudar um pouco e abrir, com sua irmã, uma escola no norte de Londres. Envolveu-se logo com um grupo protestante chamado Dissenters, o qual lutava pela implantação dos ideais da Revolução Francesa. A filósofa acompanhou de perto as transformações na França e em 1790 publicou seu primeiro panfletoem: A vindication of rights of men (A reinvindicação dos direitos do homem) onde fala dos direitos gerais do homem no sentido de “gênero humano”, ou “humanidade”.Já nessa primeira obra, escrita em forma de carta-resposta ao filósofo Edmund Burke (1729-1797), criticando duramente suas posições políticas, o nome de Rousseau aparece pouco porque ela se limita a refutar a tese de Burke de que as liberdades humanas são propiciadas pela sociedade (2014). Rousseau aparece para auxiliá-la na ideia de liberdade como direito natural, bem como na perspectiva da inocência infantil (que ela chama de “ignorância”) e da possibilidade de corrupção de sua pureza pela sociedade.

É no A vindication of the rights of woman que o nome do filósofo genebrino está em quase todas as páginas. Embora ela o admire, chamando-o de “gênio” (p. 24) e um escritor que possui uma “caneta mágica” (p. 13), a autora afirma que a mulher rousseauniana é sujeita de uma educação deficiente, cujo objetivo principal é fazê-la submissa, um “insignificante objeto de desejo” (p. 9), que cai facilmente no regime de opressão. Escrito em resposta ao documento apresentado à Assembleia Constituinte de 1791, por Talleyrand[6] - que não menciona a educação da mulher, o texto a filósofa inglesapode ser considerado um amadurecimento e ampliação das ideias defendidas nas obras anteriores. Por exemplo, no texto de 1787 (Thoughts on the education of daughters) a autora concorda com Rousseau no que diz respeito ao papel da mulher na condução do lar, como mãe e esposa. Aliás, segunda ela (p. 58), a preparação da mulher para exercer bem esses papeis deve ser uma das principais preocupações tanto da educação pública quanto doméstica durante os primeiros anos de vida das moças. Até porque, como a maioria das mulheres sem dote não conseguem bons casamentos, a boa educação poderá ser compensadora. Perspectiva que foi bastante ampliada no texto de 1792 (A vindication of the rights of woman) no qual aparece a defesa de uma educação contra o acondicionamento doméstico da mulher. Até porque, segunda ela, a felicidade depende não apenas da virtude, mas da razão e do conhecimento – ambas negadaspela perspectiva educadora tanto do Dr. Gregory quanto de Rousseau.

Nessa relação de amor e ódio, inclusive procurando afirmar que sua luta não é contra a pessoa mas contra suas ideias (WOLLSTONECRAFT, 1996, p. 93), a filósofa inglesa aponta os principais pontos que ela considerou problemáticos no pensamento de Rousseau, os quais passo a relacionar:

1)                 Igualdade e diferença – Ela concorda com Rousseau quando este aponta as desigualdades naturais, na constituição do corpo, concordando que as fêmeas são mais frágeis – segunda ela, é a lei da natureza. O problema é que isso foi utilizado como argumento de defesa da superioridade masculina e seu domínio na vida social. Ao defender o estado de natureza, Rousseau, segunda ela, endossa essa perspectiva e condena a única forma de corrigir o problema da diferença: o processo civilizatório;

2)                 Progresso e razão – O desenvolvimento social pode, contrariamente ao que anunciou Rousseau, possibilitar um processo de desenvolvimento da sensibilidade e do entendimento pode conduzir os seres humanos à perfeição, bem longe do estado de ignorância. Ela chega a dizer (1996, p. 17): “A natureza do veneno, contém seu antídoto. E se Rousseau tivesse subido um degrau em sua investigação, ou seus olhos tivessem visto melhor através da névoa na qual recusou respirar, sua mente ativa poderia ter compreendido que a perfeição do homem ocorre na civilização”; A questão é que, para ela, o desenvolvimento civilizatório deu ao homem a primazia da razão. Ela questiona (p. 3): “Quem fez do homem o juiz exclusive da razão”, relegando à mulher apenas a condição artificial de virtude? Se não foram Rousseau e o Dr. Gregory, certamente que seus “planos de educação da mulher” auxiliaram nisso;

3)                 Vida doméstica e opressão – Fora as diferenças naturais, a única diferença entre homem e mulher está na forma em que são educados. Wollstonecraft (1996) adverte que a educação de seu tempo era primaz em fazer das mulheres “objetos insignificantes de desejo” (p. 9). Para ela, Rousseau contribui com essa visão ao afirmar que a mulher não deve ser independente, mas deve permanecer uma “doce companhia” (p. 25) do homem, exercendo suas virtudes na vida doméstica – o que, segundo ela, levou fatalmente a condição da vida doméstica à condição de opressão, negando-lhes a liberdade. Diz ela (1996, p. 36): “A liberdade é a mãe da virtude e se as mulheres, em seu modo de ser, tornaram-se escravas, sem poder respirar o vigoroso ar da liberdade, serão exibidas apenas como seres exóticas e, reconhecidamente, relegadas como bonitas falhas da natureza”. Ou seja, para ela, a boa educação que uma mãe pode dar à filha é, diametricamente oposta ao plano recomendado por Rousseau em seus “eloquentes sofismas” (p. 40).

4)                 Modéstia e humildade – Para Wollstonecraft (1996, p. 128), tanto Rousseau quanto o Dr. Gregory defende a modéstia como forma de renúncia e devoção incondicional ao amor, tal como fez Júlia. A modéstia é, invariavelmente, humilhante por operar uma sujeição da mulher sob o pretexto do amor e da paixão. Para ela, (p. 129) a modéstia deveria ser igualmente cultivado por ambos os sexos e que ambos se amem de forma igual (p. 30), de forma que a mulher possa, ao final, tornar-se uma amiga do esposo e não alguém que viva sob sua dependência (p. 28);

5)                 Moralidade e reputação – A autora concorda com Rousseau de que uma formação virtuosa não pode prescindir da moralidade. Ela reconhece que haviam mulheres depravadas, principalmente em Paris; e que mulheres forma déspotas ao longo da história. Mas discorda do genebrino quando, segunda ela, o mesmo foca na reputação e na castidade como a principal tarefa da mulher (p. 137). Ou seja, todo o luxo, a pompa e o progresso da razão contribuiu, como afirma Rousseau, para a depravação dos costumes, em geral, com efeitos em ambos os sexos. Por que, segunda ela (p. 149) cobrar somente da mulher a reputação e a finesse?

A visão de Rousseau é, certamente, conservadora, porque tem como foco a família e os papeis tradicionalmente separados. De modos que ele centra a responsabilidade da mulher dentro das duas esferas de confluência familiar: esposa e mãe. Entretanto, imputar-lhe uma perspectiva misógina é um anacronismo que devemos deixar aos iniciantes. Por isso, como diz Lange (2002), ainda em sua introdução, sem uma análise mais aprofundada considerando o contexto de sua época e a contribuição que o mesmo possa ter dado ao debate,Rousseau poderia hoje facilmente ser chamado de machista e que seus escritos buscam fundamentar a exclusão das mulheres do mundo político, se tomarmos suas afirmações sobre o papel das mulheres na sociedade. Talvez a pior delas é a afirmação no Emílio (p. 466), de que “a mulher é feita para ceder ao homem e até para suportar a injustiça dele” – algo que pode nos repugnar hoje, mas que era comum na época e defendido pela Igreja.

Rousseau integra a filosofia política e moral de seu tempo a qual procuravaexplicar as origens e as razões das diferenças constituintes, buscando geralmente a causas na própria natureza: naturalmente homens e mulheres são diferentes.Rousseau reconhece essa diferença, tal como o fez Wollstonecrfat, destacando que foi no estágio pré-social, quando da instituição da família, é que os papeis foram aos poucos sendo diferenciados. Porém, Se formos à base de seu pensamento, no Segundo discurso, por exemplo, a liberdade natural determina uma igualdade natural onde podemos ver que não há uma diferença significativa de gênero. A famosa frase da descrição do homem natural: “vejo-o fartando-se sobre o carvalho...” (ROUSSEAU, 1999, p. 58), bem poderia ser aplicada no feminino: “Vejo-a fartando sobre o carvalho...”. O encontro furtivo, para satisfação sexual, não gerava nenhum vínculo, nem, tampouco diferença, subjugação ou domínio.

Já no Emílio há um conjunto de preceitos e recomendações para vida doméstica. As mulheres são incentivadas a amamentarem seus filhos, a serem boas donas de casa e a amarem a seus maridos. Mas não creio que a condição da mulher aí seja só isso, uma vez que o autor abre o prefácio dizendo que a obra tinha sido iniciada para agradar a “uma boa mãe que sabe pensar” (grifo meu). Abre-se para ela, portanto, um espaço de influência e condução virtuosa até mesmo social, tal como podemos vislumbrar no caráter de outra personagem, a Nova Heloísa sobre a comunidade de Clarens. Júlia e o Sr. de Wolmar são, por certo, diferentes na constituição física, no caráter e nas ideias. Mas há no romance uma espécie de igualdade na diferença, uma vez que partilham uma harmonia que está prevista no Emílio. O autor diz:

Dessa sociedade resulta uma pessoa moral de que a mulher é o olho e o homem o braço, mas com tal dependência um do outro, que é com o homem que a mulher aprende o que é preciso ver, e com a mulher que o homem aprende o que preciso fazer. Se a mulher pudesse remontar tanto quanto o homem aos princípios, e se o homem tivesse tanto quanto ela o espírito dos pormenores, sempre independentes um do outro, viveriam numa eterna discórdia e sua associação não poderia subsistir. Mas na harmonia que reina entre ambos tudo tende a um fim comum; não se sabe quem mais se dedica; cada qual segue o impulso do outro; cada qual obedece e ambos são senhores (p. 439).

Ou seja, nem Rousseau e nem Wollstonecraft condenaram a ideia de família e de responsabilidades distintas dentro dessa sociedade. Enquanto no pensamento da filósofa inglesa é possível prospectar uma ideia de “consentimento”, quando ela diz que a mulher não pode pela força ser confinada aos deveres domésticos (1996, p. 3), em Rousseau a vida pessoal e doméstica toma um caráter político muito significativo: “Ela deve reinar na casa como um ministro de Estado” (Emílio, p. 480).Perspectiva que é bastante clara no romance Júlia ou a Nova Heloisa. Se a mesma não é clara no Emílio, é questão lógica: Sofia não recebeu a mesma educação proporcionada pelo preceptor do jovem Emílio. Ela foi educada pela sociedade na perspectiva da educação francesa tradicional, criticada por Rousseau. Como diz Rousseau: “o que Sofia sabe mais a fundo, e que lhe fizeram aprender com mais cuidado, são os trabalhos de seu sexo” (Emílio, p. 473 – grifo meu). Se essa personagem tivesse triunfado na perspectiva da virtude e da sabedoria, seria uma contradição e não apenas um paradoxo.

Assim como Rousseau criticava os jardins franceses, a música francesa, criticava também a forma que os franceses tratavam suas mulheres. Talvez até concordasse com a análise ponderada de Madame d’Epinay, quando diz: “a fraqueza de nossa constituição e de nossos órgãos pertence certamente à nossa educação, e é uma consequência da condição que nos destinaram na sociedade”; “Certamente”, continua ela, “seriam necessárias várias gerações para nos recolocar tais como a natureza nos criou” (THOMAS, 1991, p. 138), como estamos vivenciado agora. Posso estar forçando a barra, mas vejo no Emílio uma crítica velada e sutil a esse tratamento e à educação feminina. Falando aos franceses, Rousseau disse no Emilio (p. 458): “Infeliz o século em que as mulheres perdem sua ascendência e em que seus juízos não interessam mais os homens! É o último grau da depravação. Todos os povos que tiveram bons costumes respeitaram as mulheres”. Não me parece a posição de um machista inveterado, como alguns textos sugerem e algumas críticas tentam enquadrar o filósofo de Genebra. Além do mais, vale lembrar que embora vários textos elogiassem as virtudes femininas, como o texto de Thomas, segundo os relatos,[7] as mulheres diziam que tais elogios as lisonjeavam menos do que as doces e apaixonadas injúrias de Rousseau.

 

 

 

 

Referências bibliográficas

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DIDEROT, Denis e D’ALEMBERT, Jean Le Rond. Enciclopédia, ou Dicionário razoado das ciências, das artes e dos ofícios. Vol. 5: Sociedade e artes. (Org. de Pedro Paulo Pimenta e Maria das Graças de Souza), Trad. Maria das Graças de Souza et al. São Paulo: Editora UNESP, 2015.

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______. A vindication of the rights of men. New York: Prometheus Books, 1996.

______. Thoughts on the education of daughters: with reflections on female conduct in the more important duties of life. London: Kessinger Legacy Reprints, 1787.



[1]Joseph-François-Édouard de CorsembleuSieur de Desmahis (1723-1761), dramaturgo francês amigo de Voltaire, o qual contribuiu com a Enciclopédia.

[2]Ensaio sobre o caráter, os costumes e o espírito das mulheres em diferentes séculos.

[3] Que ela chama de “pomposo palavratório, bem eloquente, um tanto pedante, e muito monótono” que não chega a nenhuma conclusão (THOMAS, 1991, p. 135/136). E quem a chama de “ambiciosa” é Badinter (2002, p. 331).

[4] Um legado de um pai para suas filhas.

[5] Mary Wollstonecraft foi mãe de Mary Shelley (1797-1851), autor ado livro Frankenstein.

[6] Charles Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838), diplomata francês que apresentou o RapportsurL’Instruction Publique, fait aunomdu Comité de Constitution.

[7] Cf. o testemunho de Marmontelin Mémoires, edição crítica organizada por J. Renwick. G. de Bussac. Clermont-Ferrand, 1972, vol. I, p. 309.


WILSON ALVES DE PAIVA é doutor em Filosofia da Educação (USP), com pós-doutorado em Educação e Cultura (University of Calgary, Canadá). Professor da Faculdade de Educação da UFG. Membro da Rousseau Association, da Societé Jean-Jacques Rousseau e outras associações de estudos de século XVIII.

Autor: Wilson Alves de Paiva