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RUA

Rua extensa e longa (com se não fosse a mesma coisa). Uma vez meu pai me disse que isto já foi de chão batido, poeirento, com casinhas de sapé e uma ou outra de alvenaria, feitas com os recursos da produção do milho, do arroz e do café, que dominavam a economia da região. Naquele sobrado no final da rua, por exemplo, viviam os Guerreiro, donos de um patrimônio de muitos alqueires e incontáveis cabeças de gado, além de um cafezal a sumir de vista. A morada dos Guerreiro guarda muitas lembranças, apesar de sua pintura desgastada pelo tempo. Lembranças de quando a Variant – carro de luxo! – chegava e buzinava para Dona Dileta abrir o portão. Todos sabiam que Malaquias Gerreiro de Britto havia chegado, sempre trazendo alguma coisa: milho para pamonha, arroz que distribuía par alguns vizinhos, abóbora que entregava aos feirantes e ovos. Meu pai ganhava alguns mimos de vez em quando, pois era a maneira de seu Malaquias dizer que gostava dos vizinhos, embora ficasse mais tempo na roça e não tivesse muito tempo para parar e prosear, como a maioria fazia. Quando chegava, todos sabiam, porque conheciam o silvo da buzina que ressonava rua acima, chamando a atenção de todos que se encontravam nas varandas ou nas calçadas. Um dia, conta meu pai, eu era ainda uma criança e não saía do quintal do seu Zé, brincando com os filhos dele. Meu irmão mais velho não participava dessas diversões porque logo começou ajudar meu pai na oficina. Precisava aprender a ganhar dinheiro, dizia meu pai. Mas onde eu estava mesmo? Eu falava de... ah! Sim, de um caso que ocorreu com essa família: Um belo dia que Dona Dileta resolveu tentar dirigir o carro e passou por cima das plantas de Dona Mercedes que, felizmente, estava viajando. Depois do susto e da correria, a vizinhança resolveu ajudar e veio a multidão para tirar o carro de cima do jardim e colocar tudo de volta. Seu Ambrósio, que trabalhava na floricultura foi uma mão na roda! Trouxe as mesmas plantas, novinhas, novinhas! Colocou lá com todo o cuidado e pediu a minha tia, Dona Geralda, que morava de frente, para aguar todos os dias.

- Não esqueça, dona Geralda: de manhã e à tarde.

- E por acaso eu não sei? Lido com minhas plantinhas e não sei a hora de aguar? Aliás, sou eu quem cuida desse jardim dela desde quando ela viajou, viu?

- Então está em boas mãos!

A intervenção de quase toda a rua em socorro a D. Dileta foi providencial. Nessa época quase não passava carro e a multidão ficou ali, conversando, ajudando de alguma forma, fofocando e até uns dois espíritos de porco a dizer que ia contar o ocorrido à solteirona.

- O que você ganha com isso? Não vai não. Vai é ficar calado.

- Tá bom!

- E quem vai consertar a cerca?

- Eu mesmo conserto! Gritou seu Malaquias. Já fui marceneiro quando novo e acho que não perdi a habilidade. Só não sei pintar!

- Eu pinto!

Meu pai foi quem consertou o problema que deu na roda do carro e depois disso passou a receber mais ovos e até um boi inteiro quando meu irmão se casou.

Felizmente a solteirona demorou chegar de viagem e a chuva corrigiu os sinais de estrago de tal forma que ao retorno da dona, só um olhar meio desconfiado foi notado pela vizinhança. Todos passavam e viam a danada ali, olhando as plantas de forma inquisitiva.

- Tem alguma coisa estranha nessas plantas aqui da frente. Até a cerca parece ais nova... Não sei o que é, mas tem sim.

-  Ah, Mercedes, são seus olhos cheios do brilho do mar. Afinal, você foi à praia, não foi?

- É, fui sim. Não queria ir, mas minha irmã me levou na marra. Mas alguém andou mexendo aqui.

- Talvez. Você nunca quis colocar um muro aqui na frente. Só essa gradinha de madeira não segura ninguém. Mas de minha parte não vi nada e olha que venho aqui todos os dias, como você me pediu. Mas, vai... conta sobre a praia!

- É... talvez sejam meus olhos mesmo. Vamos tomar um cafezinho lá dentro!

Quando meu pai me contou isso, eu já formado, com meus trinta anos, quando a rua já estava diferente, fiquei imaginando o movimento daquela turba de vizinhos. Parecia uma piada. Como é que pode? Hoje, acho que se isso acontecesse, primeiro ninguém apareceria para ajudar; segundo, a dona do Jardim processaria o invasor e a briga, o bate-boca sairia até no jornal da TV, que não sabe colocar outra coisa.

Em outra ocasião, faleceu o vô Nico. Não era meu avô, mas dada a idade muito avançada, acho que uns noventa anos, todos o chamavam de vô Nico, principalmente quando a gurizada queria ganhar goiaba e manga. Havia mangueira em quase todos os quintais, mas a molecada preferia as mangas do vô Nico. Parecia que as mangas dele eram mais bonitas, mais lustrosas e ficavam lá nos pés a balançar de forma mais atrativa, chamando:

- Ei!

Não sei se gostávamos de subir na árvore para pegar as mangas, ou se queríamos apreciar o gosto de comer o que era dos outros, ou se o que a gurizada gostava mesmo era de chupar as frutas, ouvindo as histórias de fantasma que vô Nico contava. Ah, como ele gostava de contar! E quando contava, ficávamos uma noite sem dormir. Eu cobria a cabeça toda e ficava imaginando aquelas criaturas vindo me pegar. Felizmente o sono me vencia e no outro dia já tinha esquecido tudo. Nada segurava a turma para se reunir à noite e brincar de esconde-esconde e salve-latinha. Mas... todos morrem. E chegou o dia de vô Nico. Toda a rua estava presente e grande parte ficou a noite toda conversando no quintal, ao redor do esquife. Velas derretiam e eram substituídas, o oratório foi rápido, o padre foi embora, foram-se os vizinhos que não podiam ficar, foi-se a maioria das crianças e ficou lá, no meio da roda, o Pepe, um gaúcho divertido que comprou umas terrinhas próximas à cidade, mas tinha que morar na cidade, por causa das filhas na escola. Pepe levou o chimarrão e tomava só, acompanhado somente pela silente esposa. Um ou outro tentou experimentar aquela água quente, mas recusou. Acho que só meu irmão o acompanhou, visto que já havia aprendido a tomar, quando ia visitar os sulistas, de olha em uma das filhas. Claro! Nessa situação, quem não aprende? E lá ficou o Pepe a contar suas histórias do sul, que de dramáticas foram aos poucos virando histórias divertidas. Lá pelas quatro da madrugada, quando já não havia mais velas, também já não havia mais pranto e toda a rua podia ouvir a gargalhada do pessoal a cada história/anedota que o gaúcho contava.

Em frente a nossa morada, uma casa resiste ao tempo e está de pé, apesar dos solavancos das máquinas que asfaltaram esta via, lá pelos anos 80. Aguentou o trepidar da canalização da água e até do esgoto. Como uma criatura resistente, a copiar seu dono, o viúvo Armelindo Nazareno, a casa dá testemunho desses tempos idos. O coitado mal sai de casa a não ser quando sua filha vem buscá-lo para ir ao posto de saúde. No demais, fica ali no alpendre a ouvir as notícias da Rádio Nacional, ou tentando ainda a fazer os apitos que fazia quando era novo. Meu pai dizia que seu Armelindo fazia uns apitos de madeira que imitavam os sons de pássaros. É, servia para caçar! O caçador se colocava no meio da moita, soprava aquele apito e ao aproximar das aves, dava o tiro. Era ótimo, segundo meu pai que caçou bastante, para atrair pato selvagem. O incrível é que meu pai, com setenta anos de idade, conseguia sumir na mata (não estou mentindo, isso existia por aqui por perto!) e ficar por lá, caçando até meia noite ou mais tarde. Pegando ou não, descia de sua rede, amarrada ás árvores e vinha embora. Meu pai nunca foi metódico, mas ele lembra que todas as vezes que vinha da caçada, passava de frente a casa n. 40 e o filho do Dr. Mário, o médico que havia mudado recentemente, chorava sem parar; na casa do Aparecido, o candidato a genro estava no banquinho com sua filha única. Claro, a luz da sala sempre acesa porque D. Marcolina nunca ia dormir enquanto o gabola não fosse embora. Hoje são casados e, para desespero dos idosos pais, vivem na Europa, tentando a vida por lá. E, por fim, na casa de meia-água, o sapateiro João de Mello, dava suas marteladas consertando as botinas e as sandálias que lhe chegavam pelo dia. Ninguém nunca soube porque ele preferia trabalhar à noite. Ela não dizia. O mais ermitão de todos, e apesar de meio solitário, Seu João não deixava de caminhar à tardezinha e saudar a todos que passavam. Minha mãe queria que eu aprendesse o ofício, mas um dia foi suficiente par renegar o trabalho e dizer no jantar:

- Eu não quero ficar igual ao seu João! Ele tosse o tempo todo, chiando, parecendo que tem um grilo na garganta! A senhora já viu a casa dele? Tem uma coruja no teto que dá medo, até parece aqueles bichos das histórias do vô Nico.

- Coruja?

- É... é só uma coruja empanada, mulher! Mas se você não gostou, então tá resolvido, não precisa voltar lá. Sua mãe com essas ideias! Se você não ajudar na oficina, então precisa é estudar para virar outra coisa: advogado, médico ou outra profissão boa.

(...)

- Quando foi, pai, que passaram o asfalto?

- Ah... foi no mandato do Dr. Gercino. Ele que asfaltou todas essas ruas aqui. Foi ele também quem construiu aquela praça do centro, com chafariz e tudo.

- E aquela que hoje é o local da turma do crack?

- Ah... nem me diga! Aquela foi feita pelo Zezão, o que era presidente da Câmara e virou prefeito depois. Ele botou na cabeça que tinha que ter uma praça naquele lugar. Todo mundo falou pra ele, até seu Malaquias, que ajudou na campanha, avisou que não ia dar certo. Tinham outras lugares precisando de praça, tal como aqui mesmo em nosso bairro. Nada adiantou e ele fez assim mesmo. Nunca mais fui lá, tá desse jeito que você falou?

- Tá.

- É... mas do jeito que estou, acamado, não consigo sair mesmo para lugar nenhum. 

- O senhor vai melhorar.

- Quem dera.

- Pai, quando asfaltou, o que o povo achou? Melhorou?

- E você não lembra?

- Lembro, mas gosto de ouvir o senhor contar.

- Que bobagem!... Mas teve uma turma que não gostou muito. Já pensou? Não gostar do progresso? Antes era uma poeirada danada, só sua mãe sabia o trabalho que dava limpar essa casa. Depois ficou mais limpo, né? Sem buraco... sem lama... sem...

- Sem...?

- Sem o Zé que passava a cavalo todo o dia aqui. É, foi proibido o trânsito de cavalo. Sem os banquinhos na frente da casa do Mané fruteiro e sem aquela árvore perto da esquina, plantada pelo meu pai.

- O vovô?

- É!... por ele mesmo. Aquela casa lá era dele. Assim que ele morreu, nós vendemos a casa e foi com esse dinheiro que montei a oficina.

Muita coisa mudou nessa rua... as casas hoje têm cerca elétrica, alarme e altos muros. As plantas sumiram, as árvores foram cortadas. De bucólica, a rua virou uma simétrica figura de concreto, com portões iguais, portões que abrem e fecham eletronicamente para entrada e saída dos carros. Aquele carro que está saindo agora, da casa vizinha, não sei quando chega, quando sai... aliás, não sei de quem é, nem o carro, nem a casa. Olho as câmeras que, por certo, estão filmando nossa saída. Creio que alguns podem estar olhando e fazendo um minuto de silêncio, em respeito a nossa dor. Ou talvez vejam a cena só depois, à noite, quando chegarem de seus trabalhos. A empregada não pode sair, nem para dizer: Meus pêsames!

(...)

- O que foi? Por que parou?

- Hum...? ah, sim... não, não foi nada. Só lembrando de algumas coisas que nossa pai dizia.

- Mas ele se foi, Pedro! Sabemos que você era quem cuidava dele, mas todos chegam a essa hora. Ele descansou... vamos! Que o funeral tem hora marcada.

 

Antes de prosseguir olho a rua, acima e abaixo. Poucos carros à espera para féretro. Pouca gente, rua sem graça, sem vida, sem verde, sem gente, morta como meu pai.

Autor: Wilson Alves de Paiva