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PRAA

            Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos....

            Desde quando me aposentei não me restou muita coisa que fazer. Trabalhei muitos anos naquela empresa e fui, podemos dizer, explorado no máximo que puderam tirar de mim. Era, aliás, um dos poucos técnicos que conhecia bem das engrenagens elétricas que sustentavam as operações da empresa. Nem o engenheiro sabia como eu. Herdei o trabalho de meu saudoso pai e o ajudava quando saía da escola, por isso aprendi desde cedo e pude me aperfeiçoar nisso. Meu pai adquiriu o conhecimento na construção de uma grande rodovia no Norte. Ele sempre dizia que foi um dos poucos a voltar sem ter sofrido malária e sem ter morrido no desvairado mundo novo dos militares. Voltou ileso e com bastante conhecimento. Antes disso teve o prazer, segundo ele, de participar das manobras da força armada na Itália, na segunda guerra. Depois disso foi fazendeiro, dono de bar, feirante, jogador, empreiteiro, chacareiro, artesão e técnico mecânico da empresa onde eu trabalhei até a aposentadoria. Não vivi nada disso, nunca fui à guerra, nunca pilotei avião, nunca peguei em arma, nunca gostei das histórias de Lampião. É... sou chato mesmo!

- Droga! Por que você não quer o milho hoje, seu danado? Ah!... então é porque já está cheio. Quem veio aqui antes de mim? Quem deu comida a vocês? Mas os outros comendo meu milho, o que deu em você, Corisco?

Dei nome a todos os pombos da praça. O Corisco é o líder desse grupo de uns duzentos pombos que sobrevoam os telhados, fazem casa nas cumeeiras e namoram na torre da igreja. Sempre vejo o Corisco na frente dos outros. É um dos poucos que comem milho na minha mão. Mas sempre desconfiado... Nunca consegui sua confiança cem por cento. Mas todos os outros me conhecem. Há poucos dias um velhinho meio gabola veio querer tomar meu lugar e sentou-se no banco antes de mim. Quando cheguei, ele já estava. Camisa xadrez, suspensório e boné italiano, sentadinho no meu banquinho, com a maior cara de pau.

- Bom dia. O senhor quer alguma coisa?

- Claro que quero. Quero meu banco de volta.

- Ah, ele é seu? Pensei que fosse da Prefeitura, quer dizer, de uso público. Mas já que é seu, vou sentar noutro lugar. Eu, hein... cada louco com sua mania...

- Não, não, pode ficar. Na verdade não é meu, no sentido de propriedade. Mas é meu porque venho aqui todos os dias nesse horário para dar milho aos pombos. E sento aí, nesse lugar onde o senhor está.

- Ah... Mas eu já joguei milho a eles, aqui perto de mim, mas eles não quiseram comer.

- Claro, estão assustados. Não conhecem o senhor.

- Por que não se senta? Chego aqui para um lado e seu lugar está garantido. Como é que você faz para os pombos não fugirem?

- Bom, é simples. Eles já me conhecem. Veja só. Jogo e faço o barulho deles... Viu? Estão vindo... Ei.... não tenham medo, ele é meu amigo, está comigo, podem chegar e comer.

- Que interessante... Eles estão vindo mesmo! Até parece que entendem sua fala.

Foi uma prosa boa. O senhor meu ajudou na alimentação dos pombos e depois foi embora porque era hora de tomar o remédio. Não vi mais o bom velhinho. Não sei se mudou, se não gostou da minha cara ou se morreu. O certo é que depois disso passei a aceitar companhia. Volta e meia um idoso ou um mendigo ou uma criança ou uma babá ou qualquer outro desocupado vem e se senta ao meu lado para ver os pombos.

- Como é que o senhor consegue?

- Olhe, garoto, depende de prática e tempo. Levei tempo para conquistar a paciência deles. Mas também venho todos os dias. A persistência é o caminho da vitória.

- O que é persistência?

- Ué... quando você insiste numa coisa e vai tentando, tentando, até conseguir. Entendeu?

- Uhum! Bom, a mamãe está chamando. Tchau! Da próxima vez, vou ser mais persis...

- Persistente!

- Isso! Persistente para conseguir meu game.

- Muito bem. Tchau!

- Bom dia, senhor, posso sentar aqui ao lado?

- Claro!

- Estou esperando meu filho que está ali no salão, cortando cabelo.

- Hum....

- Enquanto isso, vou lendo aqui meu jornal.

- Pega lá Corisco! Vá lá também Zico, você e o Sandoval, vai!

- Corisco? Sandoval?

- É... são os nomes dos pombos.

- Ah!

- Agora uns grãos para você, viu, Megida? Olhe, não brigue com a Zila, nem com a Bete.

- Como o senhor sabe quem são os machos e quem são as fêmeas?

- Mas isso é fácil. Só de olhar eu sei.

- Vou te ser franco: sou veterinário e tenho dificuldades para fazer essa diferença. Mas é tanta coisa para pensar, resolver, contas para pagar, gastos, finanças, conta de banco, taxas, impostos e, enfim, a correria da vida. Gosto mesmo é de cuidar de cachorro, principalmente cachorro de madame. É o que dá dinheiro, amigo... Gastam o que tem e o que não tem com os bichinhos. Aliás, vi uma delas gastar mais com a saúde do cachorro do que com a do filho. Pode um negócio desse?

- É... meio estanho, né?

- Bom, parece que o garoto terminou o corte. Já vou! Até logo, fique aí com seus pombos...

É, fico mesmo. Até Corisco achou esse homem estranho, não é Corisco? Ontem foi aquele engraxate meio drogado, hoje foi esse veterinário que não sabe que você é macho. Não, não, não é que ele duvide de sua masculinidade... É que é burro mesmo, não sabe diferenciar as coisas. E é veterinário, hein! E se não fosse? Agora vai buscar o milho bem longe, quero ver você voar. Vá lá!

- Ei! Olhe por onde joga esse milho! Sujou minha roupa...

- Desculpe, senhora. Não foi minha intenção. É que eu não tinha visto a senhora vindo. Mas não sujou nada...

- Ah, não? E essa manchinha amarelada aqui em minha blusa branca? Como é que vou para a reunião da Câmara agora?

- A senhora trabalha na Câmara de vereadores?

- Sim, trabalho! E estamos agora numa discussão extremamente importante que é a votação do plano diretor. É o plano que vai definir tudo nesta cidade, até sobre esta praça, sabia?

- Como assim, mas a praça existe há décadas, é ponto referencial da cidade e...

- Hiii... bobeia não. Se eles resolverem que vão tirar a praça, tiram mesmo. Aliás, deveriam já ter tirado. Para que serve essa praça se não para os pombos e... e... alguns aposentados ficarem por aí...

- Como eu?

- É... exatamente, como o senhor que poderia estar num asilo, ou em casa trabalhando, ou fazendo alguma coisa útil. Até logo! Preciso ir, que já estou atrasada. Vamos ver se o senhor vai continuar por aí dando milho aos pombos.

De política local à global, fiquei sabendo outro dia, por um senhor de gravata que sentou ao meu lado, lendo um jornal, que os Estados Unidos invadiram outro país em nome da guerra ao terror. Gastaram bilhões de dólares para alimentar essa guerra e pedem ajuda aos países considerados amigos. É justo isso? Ajudar a um amigo em suas loucuras desvairadas? O homem acha que nosso país deveria ajudar, mas o Expedito, que é um ex-vereador, agora aposentado e alimentador de pombos, como eu, disse que nosso país seria trouxa em ajudar a América a ganhar mais dinheiro ainda com suas guerras. Se a guerra é deles, por que nós vamos entrar nela? Temos nossa guerra aqui contra a seca, a pobreza, o desemprego, a desigualdade e etc. Quando fala assim, Expedito vai ficando vermelho à medida que se exalta. Após uns minutos de conversa, ele levanta, gesticula e rosna alto, esbravejando. Até os pombos já acostumaram com sua fúria. Nenhum voa, nenhum foge porque sabe que é o velho Expedito.

- Ei, Orácio, vem cá!

Do Orácio os pombos não gostavam porque ele nunca jogou nada para eles. Era muito ranzinza e ficava só circulando a praça com aquela barrigona e o cachimbo. Não fez nenhum curso superior, mas gosta de bancar o intelectual, o sabe-tudo. Foi funcionário dos correios até não dar conta mais. Duas filhas estão na Inglaterra e só manda cartas e alguns euros para ajudar ao pai.

- Como vão as meninas na Europa?

- Não muito bem. A crise daqueles países lá não dá sinal de melhora, mas de piora. Sabe o Eurípedes? Pois é, o filho dele que estava na Espanha, voltou. O desemprego lá está altíssimo e se não tem trabalho nem para eles, quanto mais para brazucas. É a crise econômica, amigo, pegando os países do velho mundo. Ainda mais agora com a imigração africana e árabe em todas aquelas nações, a coisa fica pior. Você sabe, o euro depende da estabilidade de todos os países membros da comunidade europeia. Aí vem os romenos, os gregos, os turcos e sabem lá quem mais a perturbar a tranqüilidade deles. Olha lá o que os jovens africanos estão fazendo nos bairros da Paris. Ah... Paris nunca mais será a mesma...

- Você já foi lá?

- Não, claro que não. Mas acompanho as notícias, não fico aí perdendo tempo com pombos!

- Vá, Corisco! Pega!

- Ahn? Corisco? E esses bichos têm nome?

- Claro!

- É muita perda de tempo, vou pra casa assistir ao jornal do meio-dia. É preciso ficar informado! Até mais!

Não é tão ranzinza assim, meu amigo Orácio. Só não gostava de ficar muito atrás da conversa, quando se reune com o Dr. João Marinelli, juiz aposentado, e a turma do xadrez, que ficava do outro lado da praça, debaixo daquela imensa gameleira. O grupo é composto, ademais, pelo João trinta, motorista de taxi que prefere ficar ali jogando do que sair fazendo uma corrida. Quando chega alguém ele faz aquela cara de insatisfeito, mas vai assim mesmo, se não, não tem comida na mesa. Maguila é o alfaiate que foi campeão de xadrez quando era jovem. Walter Brandão foi fazendeiro e agora deixa as terras por conta dos filhos para ficar entre essa turma que, acrescida de mais alguns, nunca fica sem uns dez ou quinze. É um grupo muito interessante: jogam, bebem, riem, discutem e, às vezes, brigam. Sempre há a discussão política. Todos foram atuantes de um ou de outro partido e tiveram sua parte na política da cidade. Até hoje o Walter participa do comitê do seu partido e tenta convencer os outros a se filiar. Mas nem todos são amantes de seu grupo político e aí a discussão vara a tarde toda. Maguila reclama das fábricas de roupa que agora vendem calças, ternos e camisas a preço de banana. Quem vai querer mandar fazer uma camisa? Só sobra consertos para ele. Nessa hora, Pedro Batista, eterno anarquista, que jura ter andado uns trechos com o Prestes, grita enraivecido:

- É o novo modelo da vida econômica! O novo estilo de vida que desconsidera a produção artesanal, o trabalho profícuo de um laborioso homem do trabalho, como você, meu caro Maguila. O que querem agora é a mais-valia que enriquece cada vez mais esses empresários.

- Pera aí, Batista! Não é bem assim não...

- Como não é assim, seu Walter?

- Olha só, minha filha abriu uma confecção há cinco anos. Tem lá seus funcionários, mas todos eles ganham bem, pois ganham pela produção e não está rica com isso.

- Mas tem lá seu dinheirinho, seu Walter. Eu já vi ela passar aqui num carrão! E isso é fruto do quê? Do aproveitamento da mais valia!

- Ah... você é um marxista metido a besta!

- E você é um liberal! Por isso está nesse partido de burguês! Está aí no poder a tanto tempo e o que fez? Olhe a buraqueira na cidade e...

- Cheque-mate!

- O quê???? Não valeu, Orácio! Eu não vi sua rainha aí...

- Claro, fica aí brigando com o Batista... Bem feito!

Acho que foi a primeira vez que Orácio venceu o senhor Walter. Ele nunca foi muito bom no jogo, mas não perde uma partida para estar no meio desse grupo, para estar informado das mudanças do mundo, da política local, regional e nacional. Na verdade, é isso que o mantém vivo, essa conexão com a agitação dos movimentos de rua, da quebradeira dos ônibus que aconteceu na capital, dos problemas dos aeroportos, da crise econômica que afeta seus filhos, da política do banco mundial, das greves, dos assaltos, dos impostos e de tudo mais.

- O mundo está em polvorosa! – É o que costuma dizer – E você? O que faz? Hein?

Dou meia volta, rumo ao meu banco. Os pombos me aguardam. É ora da comida. Ao fundo, lá naquele bar, soa a música de um velho cantor brasileiro:

            Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos....

 

 

 

Autor: Wilson Alves de Paiva