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TREM

Já passa das nove horas e o trem ainda não chegou. Olho para um lado, olho para o outro e vejo a inquietação na face de todos, a não ser na vista tranquila do mendigo sentado ao chão ao lado de seu chapéu desgastado e sem muita contribuição. Só umas moedinhas e uma nota de cinco bem amassada.  A sujeira do casaco não é diferente da sujeira da própria estação, mas contrasta bastante com o brilho do sapato daquele senhor de terno. Contrasta também com o lenço no pescoço da senhora que agora movimenta os braços nervosamente e conversa com a companheira ao seu lado. Dia comum, como todos os outros. Quase as mesmas pessoas, a mesma multidão, a mesma sujeira, o mesmo ar e a mesma vida de sempre... sempre a mesma coisa... Só esse atraso para variar.

- O que deve ter acontecido? Baixo as vistas e vejo os ponteiros do meu relógio de bolso.

- Nossa! O senhor tem um relógio de bolso?

- O quê? – Como não notei a presença desse moço franzino ao meu lado? Ele estava aqui desde quando sentei? Chegou depois? Leu meus pensamentos? Será ladrão querendo meu relógio? Olho para um lado e não vejo nenhum policial ou guarda municipal e meu coração acelera...

- Que bonito! E funciona direitinho?

- O quê?

- Seu relógio, ora.

- Ah, sim... é... é... funciona e é por isso que tirei ele... ou seja, para ver as horas porque essa p... desculpe, essa coisa de trem não chega, c... perdão!

- Deve valer muito, não?

- Não, na  verdade não. É uma cópia, feita na China. – Menti, pois fiquei amedrontado com a abordagem desse rapaz. O relógio me foi dado pelo meu pai, que o ganhou do meu avô. É suíço, com rubis, peças de ouro e tudo mais. Mas como vou dizer isso a quem não conheço e que parece um ladrão? Do lado esquerdo, um grupo de jovens brinca como se tivesse todo o tempo do mundo e não precisasse de chegar cedo. Entre tapas, risos, gritos e gestos obscenos, o grupo não se dá conta de que eu posso ser assaltado a qualquer momento. À nossa frente umas quinze pessoas estão tão bravas quanto eu. Mas alguns usam fone de ouvido, escutando não sei o quê, uns dois lêem algo que pode ser até interessante e os demais não tiram a vista do horizonte de onde vem o trem na esperança de ver a luz da locomotiva. Meu Deus, ninguém está olhando para nós e esse rapaz...

- Que horas são?

- Ui!

- O que foi, moço?

- Não, nada... só assustei e... e... o que foi que você perguntou?

- As horas. O senhor guardou seu relógio bonito tão rápido que eu não vi as horas.

- Ah... deixe eu ver de novo. – É agora que ele me toma o relógio? Tiro com cuidado, segurando firme. – São 10 e 40.

- Quarenta minutos de atraso... Pego essa porcaria de trem todos os dias aqui e é sempre a mesma coisa. Mas nunca atrasou tanto. Mas não adianta ficar com raiva, é bobeira. O negócio e ter paciência e esperar.

- Não estou com raiva...

- Ah, então já sei... O senhor está com medo... Fique tranqüilo, não vou roubar seu relógio. Primeiro porque não sou ladrão. Segundo, porque o senhor disse que é só uma cópia chinesa barata, o que eu não acredito muito. Terceiro, olhe o tanto de gente... Como eu conseguiria tomar seu relógio e sair correndo? E, por fim, tá vendo aquele cara de boné azul encostado à coluna em frente à saída do sanitário?

- Ahnn??

- Aquele lá que olhou para cá agora... Ele é o cara que controla todos os roubos aqui da região. Traficante da pesada, e receptor de objetos.

- Como você o conhece?

- Ora, cinco anos pegando o mestre trem, quem não fica sabendo? Pois então, se eu roubasse seu relógio, ele me degolaria porque não tenho nada com ele e ele não aceita ninguém roubar no território que pertence a sua gangue.

- Território?

- Ora, o senhor é de que planeta? Não sabe o que é um território? Daqui a pouco vai dizer que a polícia toma de conta e não deixa isso acontecer. Só gritar ou ligar o número no celular e dez minutos eles estão aqui. Se disser isso, vou dizer que o senhor acredita em Papai Noel.

Não sei se é o medo, mas a única reação que consigo ter, diante desse rapaz, é ficar olhando para ele. Tento levantar do banco, mas não consigo. Finalmente o apito do trem. Todos olham e, embora ainda não tenha aparecido a luz, ma o som do apito já produz diversas reações. Só o grupo de jovens não muda em nada, continua com seus gritos e arruaças. O mendigo se levanta e se encaminha para a plataforma.

- Coitado do Neco, bebeu demais novamente.

- Ah...? quem?

- O Neco, o mendigo.

- Meu Deus, esse cara está lendo meus pensamentos? O que ele quer? – Por alguns momentos o silêncio é pior do que a conversa. A dúvida, o medo, a desconfiança... temo pelo relógio, por minha vida... o pânico! Posso parecer exagerado, mas só quem já passou por situação como essa, pode descrever. Ou, talvez estejamos todos ficando paranóicos...

- Ah! Que bom!

- O quê? O quê? O que foi?

- Calma, moço! É o trem que está chegando... Finalmente!...

O trem chega e todos se animam. Muitos descem e a multidão é intensa no acotovelamento e na disputa pelas cadeiras. Consigo andar rápido e me sentar ao lado de uma senhora que não para de tossir e um senhor que deve estar dormindo desde a primeira estação. O trem sai e olho para trás para ver se o rapaz ficou no banco ou se também pegou o trem. Não o vejo. Sinto alívio e o pensamento começa a vagar. Mas depois de três estações, quando o corredor se esvazia, olho para o final o vagão e lá está o rapaz sinistro... Por que ele fica me olhando? O que ele quer? Desvio o olhar e contemplo as caras curiosas desse trem. Um jovem finge dormir para não dar lugar a uma senhora a sua frente. Outros ouvem música ou qualquer coisa de seus aparelhinhos. Do outro lado... ai, ai... o cara não tira o olho de mim.

- Com licença... obrigado. – É minha estação. Fico à porta. Quando o trem para, saio em disparada, junto à multidão. Somos uma massa humana saindo dessa lata velha. Vou à direita, subo a escada e ganho a rua. Calçada... uns para um lado, outros para outro e cada um vai tomando seu rumo... Viro de novo e ouço passos atrás de mim. Fico com medo. Não olho e acelero um pouco mais. Viro de novo e a impressão é que estou sendo seguido.

Consigo chegar ofegante e bato à porta. Minha esposa abre assustada e não entende o que está acontecendo.

- Mas o que é isso? O que aconteceu? Por que está suado desse jeito? Parece cansado... E por que atrasou tanto?

- Foi o trem que atrasou quase uma hora. Depois um cara mal encarado ficou conversando comigo o tempo todo e me seguiu no trem. Tive a impressão de que veio atrás de mim. Tranque a porta!

- Mas estamos esperando o Helinho...

- Helinho??? Quem é esse?

- Ora, o namorado da Sandra. Ela convidou ele para vir jantar conosco e apresentá-lo a você.

- Não sei se consigo jantar com alguém. Estou com raiva, cansado e cheio dessa estação, desse povo, desse trem. Ei! Alguém está batendo à porta.

- Ah, deve o ser o Helinho. Vou atender. E você se comporte, viu? Não vá estragar o jantar e botar o moço para correr, como fez da outra vez com o Gustavo. Coitado... acho que até hoje não conseguiu esquecer a cena.

- Boa noite, dona Marta! Cheguei um pouco atrasado, mas estou aqui. Como vai?

- Ah, estou ótima! Vamos entrar. Só o Nego, quer dizer, o Amaury, que está cansado porque chegou agora, com raiva porque o trem atrasou e disse que alguém estava seguindo ele. Deve ser um desses ladrõezinhos por aí. Nossa cidade está cheia, você sabe...

- É mesmo... uma pena. Boa noite seu Amaury! Tudo bem? Prazer em conhecê-lo...

- O que foi Nego? Por que não responde ao rapaz?

Face a face, ficamos olhando um para o outro. A mesma inércia da estação... fico parado sem entender o que esse rapaz está fazendo em minha casa. Até que balbucio algo e, como acordando do pesadelo, consigo dizer: Mas... mas eu conheço você!

- Sim, do trem.

- É... mas...

- Chega de conversa! Que modos são esses, Nego? vamos para cozinha porque a comida já deve estar esfriando. Nila, seu namorado chegou. Venha recebê-lo que eu vou arrumar a mesa.

- Já vou, mãe!

Como dois estranhos na estação, dois não tão estranhos se olham no corredor da casa. A cara do sujeito é a mesma, mas estou aliviado, ao mesmo tempo que intrigado.

- Já que estamos sós, deixe-me dizer... francamente estou aliviado! Não posso negar. Desculpa, pensei que você fosse ladrão. Cheguei a ficar com medo. Mas você não agiu de forma estranha? Não era você vindo atrás de mim, como um vulto? Certeza que não queria pegar meu relógio?

- É eu vi... Sempre encontro pessoas com o senhor, na estação. Sempre as mesmas pessoas desconfiadas. Deve ser a violência de hoje em dia, a quantidade altíssima de bandidos, os índices de furtos, latrocínios e etc. Não posso culpá-lo. Afinal, quem não teme ao ser abordado por uma pessoa que não conhece?

- Mas nem vi você se sentando ao meu lado...

- Talvez porque o senhor estava envolto em pensamentos, preocupações e tudo mais. É assim mesmo... É normal!

- É, talvez... Mas tudo bem! Vamos entrando... a cozinha é logo aqui.

- A propósito seu Amaury, quantas horas são? Nossa, que cozinha bonita. Quanta coisa! Um banquete! Dona Marta, a senhora é demais!

- Ah, que isso, Helinho... eu e Nila preparamos. Ela fez grande parte da comida.

- Ei, cadê meu relógio?                                      

- Nila! Estamos esperando! Seu pai deve estar morrendo de fome! Anda logo!

- Aqui está, seu Amaury. Realmente, muito bonito... suíço! Legítimo! Não é cópia chinesa, seu malandro!

- ...?

- Parabéns! Dona Marta! Parabéns! Parece uma comida deliciosa! Seu Amaury é um felizardo na vida... Oi, meu bem! Como vai?

- Vamos sentar! Nós duas estamos esperando há horas e estamos com fome. Ei, pai, que cara de bobo é essa? Senta logo!

- Isso mesmo! O que foi, Nego? Que cara é essa? Não está feliz em conhecer o namorado de sua filha? Como diz o pessoal, você não tem culpa no cartório, né? E se não tem, de quem é a culpa?

- Do trem.

Autor: Wilson Alves de Paiva