image 1 image 2

COLHEITA

João Marinho, que de marinho só tinha o nome por ser filho de Baltazar Marinho, dono do bar da esquina que mais vendia salame e chouriço português, somente para preservar a memória de seu avô lusitano que um dia ousara atravessar o mar e entrar tanto nestas paragens. Não conhecera o mar, talvez por estar longe, ou simplesmente porque nunca tinha tido vontade de ver tanta água, principalmente salgada. Nasceu e cresceu na velha cidade, sem imaginar com exatidão a imensidão do oceano, a distância das terras e a origem de sua família. Só um leve sotaque permaneceu em sua fala, que aprendeu do pai, que aprendera do avô.

- O mar é desaventuroso, seu Tavinho... desaventuroso!

- Ora, João, e quando foi que conheceu o mar para dizer isso?

- E precisa? Nunca viste na escola as histórias das ondas que engolem os navios? Dos piratas, das viagens de marinheiros sem rumo que nunca voltaram? Ademais... como dizia meu avô...

- Mas você disse um dia que não tinha conhecido seu avô...

- Não fales besteira, claro que não! Meu pai é que sempre repetia isso. E se eu ouvi dele, e não de meu avô, não posso dizer, então? Não posso dizer o que meu avô disse, só porque não o conheci pessoalmente?

- Não, não é isso. Só queria entender e...

- Pois então cala-te o bico e te ponhas a ouvir isto que tenho a falar.

- Isso o quê?

- Ora... é... pois bem, agora já esqueci! Viste como se não pode ficar cortando a fala dos outros?

- Agora eu que tenho culpa? Acho que você falava sobre o mar.

- Ah... sim, de que o mar é desaventuroso... Isso mesmo!

 - Desaventuroso não sei, mas eu acho que ele é salgado, só isso. E grande, bem grande que some de vista. Nunca fui ver, mas tenho um sobrinho que foi e provou da água... é salgada mesmo!

- Mas é claro, seu Tavinho!  Mas não é só isso. O mar tem uma grande quantidade de peixes, grandes, pequenos... camarão, bacalhau e tem as baleias, sabe? Meu pai sempre trazia bacalhau para o Natal e minha mãe fazia uma sopa de ervilha que dava gosto! Colocava ali um bocado de couve, bastante bacalhau, e a gente fazia a festa. Já comeste bacalhau?

- Não... acho que não! Pelo menos que me lembre...

- Pois não sabes o que estás perdendo! e o mar está cheio deles, não só de bacalhau, mas de mariscos que nunca ouviste falar! E vou te dizer uma coisa: o povo português sabia disso, tanto que se lançava ao mar para pegar sua comida e aprendeu a fazer navios como ninguém. Não sabes que Cabral chegou aqui pelo mar? que quase todo mundo descende dos que vieram cortando o mar? A gente viu isso na escola, ou não te lembras?

- Sim, lembro...

- Ah... o mar!...

- Uai, você não estava agora mesmo dizendo que o mar é... o que mesmo? ah, desaventuroso? E agora já está aí falando bem dele e sonhando acordado? Suspirando que nem um poeta...

- Oh, criatura de Deus, desaventuroso para o português não quer dizer mal, mas algo que seja interessante, cheio de aventura, emoções e ao mesmo tempo possa trazer alguma desgraça. Mas não é sempre que traz. Pode ser que sim, pode ser que não. Vá que tenha sorte, o sujeito pode ser feliz, realizar sua aventura e se realizar na vida. E...

- Bom dia, seu João... tem aí aquele queijo de cabra?

- Bom dia, dona Cidinha. Hoje não tenho. Pois o gajo que me fornece o leite parece que não está bem, teve que ir à cidade para ver o médico e já faz mais de semana...

- É mesmo? Coitado...

- Pois é... ouvi dizer que não conseguiu muita coisa, só uma consulta rápida no posto, sem ser encaminhado para especialista e só um exame dos cinco que o médico pediu. A senhora sabe como são as coisas do governo: devagar, quase parando...

- Então tá igual aqui: sem remédio, sem visita dos agentes de saúde, sem exame e sem nada. Tudo uns bando de ladrão! Só querem para eles e que se dane o povo!

- Vamos rezar para que ele melhore. Eu já pedi a virgem de Nazaré e, claro, a nossa Senhora Aparecida, para ajudar esse pobre coitado...  que recupere logo e que volte a me trazer o leite. Se não... não tenho como fazer queijo. Ninguém mais cria cabras por aqui. Nem esse desaventuroso aqui cria uma cabrinha... bem que podia!

- Eu não! Tu tá doido, João? Nem de cabra eu gosto!

- Pois num vê, dona Cidinha, como são as coisas?

- Mas é mesmo, seu Tavinho... o senhor tem lá um quintalzão no fundo de sua casa. Por que não cria lá umas cabrinhas? O queijo é muito bom!

- Eu tô muito bem com minhas galinhas... Além do mais, tiro meu sustento é das corridas... Não preciso do diabo de cabra para me dar trabalho! O “portuga” aqui fala isso porque não é ele que cria, só fica aí de boa recebendo o leitinho e bota lá para coalhar e logo tem o queijo. Se fosse para criar, não sei não!

- Saiba você, seu Otávio de Araújo, que meu avô era criador das cabras que recebeu do pai dele, que tinha recebido do avô dele! E...

- Não venha com essa história, meu caro, pois “já disseste” que seu avô era marinheiro! Que invenção é essa agora?

- É... é... e não se pode ser marinheiro e ter lá suas cabrinhas? Ora essa, era minha avó quem cuidada delas! Tas a ver? Até mulher cuida de cabras e tu ficas aí a ver navios!

- Ahahaha! Vou deixar vocês brigando aí e já me vou. Seu João, quando tiver o queijo, mande me dizer, viu?

- Sim senhora! Vou avisar. Até logo! Desculpa aí a falta de modos de seu Tavinho...

- Eu? E o que eu fiz?

- Ficas quieto aí e escuta a história que tenho a contar... Tem a ver com cabras, com aventura e com o mar.

- Que história, meu caro?

- É sobre meu avô... Velho teimoso das terras de Nazaré, onde minha avó morreu de tristeza...

- Já vi de onde vem a teimosia do nobre amigo! O quê? Como é que é... morreu de tristeza? Por quê?

- Ah, acho nunca te contei essa... O velho Deodato Marinho brigou com um figurão da cidade e fugiu num barco para Moçambique. Se não tivesse fugido, a família do tal figurão teria vindo dos Açores para acabar com ele. Então para não prejudicar a si mesmo e à família, ele passou uns meses n’África e mandou dizer que havia afogado no barco que foi à pique. O problema foi que pediu ao piloto para espalhar a notícia e a outro amigo seu para chegar antes e avisar à esposa. A questão é que esse desaventuroso amigo parou no Alentejo, terra natal, e bebeu por um mês inteiro... Quando chegou a Nazaré, a viúva já tinha passado dessa para melhor com a triste notícia do esposo. Morreu de tristeza...

- Ah, então foi por isso que ele veio para o Brasil?

- Claro! Quando voltou de Moçambique, não tinha como ficar em Nazaré. Vendeu a casa o mais rápido que pode, pegou uma prima próxima, um brotinho, e veio embora. Com o dinheiro, comprou as terrinhas ali do Rio Turvo e construiu aquele barraco onde a gente fica quando vamos pescar de vez em quando. Trabalhou ali até morrer e foi enterrado ao pé daquele morro, lá onde estão aquelas cruzes, lembra? Isabella Marinho, minha avó durou muito tempo, mas só teve meu pai e mais ninguém. Falava direto em voltar para Portugal, mas nunca foi lá nem a passeio. Um dia meu pai disse: mãe, vamos vender umas vacas e vamos a Portugal? E sabe qual foi a resposta?

- Hum?...

- Lembro como hoje... Eu era pequenino, mas lembro dela virar para meu pai, olhar para ele bastante tempo... encostada que estava ao fogão à lenha, disse:

- O mar é desaventuroso!

- E o que vamos fazer, mamãe? – meu pai perguntou a ela. Sabe qual foi a resposta?

- Hum?

- É tempo de colheita...

- Tá... mas e daí?

- Ora, seu Tavinho, meu pai disse que não tinha colheita na época. Era tempo de chuva e eles estavam cuidando só das criações: das cabras, das galinhas, dos porcos e das vacas... tirando leite, fazendo queijo e requeijão. Ele ficou com receio de perguntar do que ela estava falando e nunca ficou sabendo, pois ela morreu logo depois. Foi quando meu pai vendeu as vacas, foi a Portugal visitar os parentes, apresentar minha mãe e aproveitou que estava lá para trazer mercadorias e montar este comércio. Começou com pouca coisa, mas depois foi expandindo até virar este mercadinho!

- E você agora está só colhendo...olhe aí o tanto de mercadoria... de clientes... você tem uma boa clientela, amigo!

- É... tamos aí a colher... Mas para colher tem que plantar, né? Se eu não trabalhar, não fazer boa compra, não ir à capital para comprar no atacado, não fazer meu queijinhos, que tu disseste que não dá trabalho, mas dá... se eu não “plantar”, não tenho o que colher, não é?

- Bom dia, seu João! Bom dia seu Tavinho! Quanto é a corrida até o morro da Consolação?

- Que rua?

- Na rua Constança Marinho.

- Olhe aí, seu Tavinho, na rua que levou o nome de minha avó! Vá lá, Tavinho, faça essa corrida de graça! Uma homenagem à saudosa...

- É, né? E como é que fica minha colheita? Vivo de meu taxi, mais nada!... Vamos lá amigo, te levo por 15 reais.

- Ok.

- ...

O silêncio do comércio, o silêncio da rua e o silêncio em sua cabeça fizeram com que João Marinho nem sentisse o vento seco e quente de agosto que lhe batia o rosto. Os lábios rachados se moviam num sussurro incompreensível, enquanto as pálpebras piscavam nervosamente. Seus dedos roçavam a cabeleira grisalha e seus pensamentos voavam soltos, em busca de alguma coisa distante.

-              O que será que sua avó quis dizer com isso? Ela foi aventureira, mas não queria aventurar-se ao mar... Não plantava nada e queria colher... Por que será que o povo português sempre foi misterioso, cheio de... de... como é mesmo o nome? Estudei isso no segundo grau e não me lembro... é... ah, sim... metáfora! Um povo cheio de metáfora, alegorias, comparações e histórias. Era assim meu pai e, creio, minha avó e meu avô: cheios de mistérios...

João Marinho volta e meia contava essa história a alguém, mas nunca a narrativa tinha lhe afetado tanto. Pela primeira vez na vida pôs-se a pensar no significado das palavras proferidas por sua avó naquele dia. Seu pai dizia que ela estava meio caduca com a morte do marido e ficava falando coisa com coisa...

-       Mas de que colheita ela estava falando?

Com o pouco movimento, o comércio de João Marinho foi fechado mais cedo naquele dia, e a silhueta do “velho portuga” - como as crianças o chamavam – ganhou a rua, dobrou a esquina e foi-se ao longo da avenida principal até fundir-se com o enorme sol alaranjado que se punha por trás do morro, lá para as bandas do Rio Turvo.

No dia seguinte, bem cedo, uma figura esguia projetava sua sombra sobre a lápide de Maria Isabella Constança Silva Marinho. Como a semente que retorna à terra para germinar, assentar as raízes e gerar os frutos, ali estava João Marinho retornando à terra onde fora criado. Andou a noite toda... chegou antes do sol nascer,foi à casa, arrumou as tralhas de pesca, como fazia todos os domingos, e saiu rumo ao rio. Mas os pensamentos que perturbavam sua mente levaram-no ao cemitério da família, ao pé do morro, e ali o fizeram ficar até o amanhecer do dia.

Constança Marinho aproveitou bastante a vida nesse descampado das terras...Fazia de tudo e participava de tudo, até das caças e pescas do esposo. Foi às vizinhanças e, com as comadres, participou das catiras, das rezas e até dos mutirões. Falecido o marido, vendeu o trator e ajudou a construção da creche onde João Marinho se iniciara nas letras. Tazar, como chamava o filho, não perdia os espetáculos do circo, quando vinha à cidade – costume que procurou passar ao filho... Boas lembranças!...

Constança Marinho descansava em paz...

Segunda-feira cedo, seis da manhã, seu Tavinho encostou, como de costume, o velho taxi à porta do mercadinho. Em vez de encontrar o velho amigo com seu habitual mal-humor, encontrou um João realmente marinho, ou seja, brilhoso, cheio de vida e refletindo o azul celeste que pairava na abóboda sobre a cidade. Ao perguntar ao amigo o que havia acontecido, recebeu a seguinte resposta que não entendeu no momento, mas depois, percebeu tudo:

 

-              Acho que entendi o sentido das palavras de minha avó e comecei a desfrutar de minha colheita!

Autor: Wilson Alves de Paiva