image 1 image 2

O PODER NAS ORGANIZAES

Na visão sistêmica, uma família é um sistema concreto e não uma abstração e pode ser vista, “em certos aspectos, como uma unidade, do mesmo modo que o sistema de moléculas que compõe um lago,... [moléculas essas] unidas por ligações de hidrogênio”.  O que une uma família seriam vínculos de afeto e de interesse (BUNGE, p. 173).

O sistema sociedade moderna, rotulado como sociedade organizacional ou de organizações, é um sistema concreto e não uma abstração, podendo ser visto, em certos aspectos, como uma unidade, cujas moléculas seriam as organizações. Do mesmo modo, a organização também é, em certos aspectos, uma unidade, cujas moléculas seriam seus componentes. Essa unidade decorre de sua ‘estrutura’ sistêmica, ou seja, de quanto as relações pessoais (R) e de transformação (T) ligam as ‘partes componentes’  entre si e aos ‘meios’, para atingir os fins organizacionais. 

Pergunta-se: os vínculos interpessoais responsáveis pela unidade e coesão da sociedade são da mesma natureza daqueles responsáveis pela unidade de cada organização que a compõe? Por que?

Qualquer organização será mais ou menos coesa, tendendo à unidade, se os vínculos interpessoais que unem seus componentes forem mais ou menos capazes de realizar suas metas ao longo do tempo, permitindo mudanças estruturais para adaptar-se ao meio-ambiente interno e externo e, em decorrência, sobreviver.

Essa adaptação é possível unicamente em função de vínculos interpessoais distintos mas correlacionados. Primeiro aqueles relacionados com valores individuais e sociais, utilitários ou não utilitários, embutidos nos propósitos de cada indivíduo e nas finalidades da organização. Segundo, aqueles referidos à capacidade de realizar esses valores. Em suma: tais vínculos dizem respeito ao "poder de...".

Conceituação de Poder

As escolas, teorias, conceitos, definições e opiniões sobre o poder são as mais diversas e contraditórias. Sua análise não comporta uma descrição de algum fenômeno a ele relacionado, apenas: - ação de um sujeito para afastar resistência(s) a um resultado, ou seja, uma causalidade sob condições desfavoráveis (LUHMANN, 1975, p.3). Em outras palavras, não se pode reduzir o substantivo poder a um particular fenômeno físico e somático, de causa e efeito: eu posso X, porque eu faço X, como levantar uma pedra, apertar um parafuso ou deslocar-me a mil quilômetros por hora, num supersônico.

A análise do poder torna-se complexa quando a ação de um sujeito, instrumentalizada para afastar resistência(s), refere-se a um resultado desejado. Mais complexa, ainda, quando a(s) resistência(s) advêm de vontades de outro ou outros sujeitos, e a instrumentalização é ampliada para o universo da comunicação.

KAPLAN & LASSWELL fornecem vários enunciados sobre o substantivo poder, de vários autores e deles mesmos (1950, ps. 110 e 111):

·      “é a produção de efeitos pretendidos” (Bertrand Russell);

·      “é certo tipo de relacionamento humano...” (J. Carl Friederich);

·      “é a capacidade de um indivíduo ou grupo de indivíduos modificar a conduta de outros indivíduos ou grupos da forma que quiser” (Tawney);

·      “é participação no processo decisório: G tem poder sobre H, com relação aos valores K, se G participa da tomada de decisões que afetam as políticas de H relativas a K”. É um caso particular do exercício de influência: procura-se afetar  as políticas dos outros “com a ajuda de privações severas (efetivas ou ameaçadas) se não se conformarem às políticas pretendidas” (1950, ps. 110/111).

GALBRAITH conceitua poder como a “capacidade que tem o indivíduo ou o grupo de impor os seus objetivos a outros” (1973, p. 93).

Para Max WEBER poder é “a possibilidade de que um homem, ou um grupo de homens, realize sua vontade própria numa ação comunitária até mesmo contra a resistência de outros que participam da ação”.... O poder ‘condicionado economicamente’ não é, decerto, idêntico ao ‘poder’ como tal. Pelo contrário, o aparecimento do poder econômico pode ser a conseqüência do poder existente por outros motivos”  (1946, p. 210).

Para BOBBIO, no discurso contemporâneo, a interpretação de poder mais aceita deriva da ‘teoria relacional do poder’: é a faculdade derivada da relação entre dois sujeitos, pela qual um obtém o comportamento do outro exclusivamente em decorrência dessa relação. Citando Robert Dahl, entende o ‘poder’ como espécie do gênero ‘influência’.  É conceito estritamente ligado ao conceito de liberdade: “O poder de A implica a não liberdade de B; a liberdade de B implica o não poder de A” (1987, p.78).

C. Wright MILLS relaciona o poder “com quaisquer decisões tomadas pelo homem sobre as condições de sua vida, e sobre os acontecimentos que constituem a história de sua época.... Na medida em que as decisões poderiam ser tomadas, mas não o são, o problema transforma-se em saber quem deixou de tomá-las” (1963, p. 25).

Essas conceituações, para os fins deste trabalho, podem ser sintetizadas da seguinte forma: poder é a vontade de um sujeito de lograr a realização de um valor posto racionalmente como motivo de agir,  associada à capacidade de satisfazê-la.

Os cenários do poder são os mais diversos, dependendo do que KAPLAN & LASSWELL designam como domínio, alcance, peso e coercitividade (1950, ps. 109 e 112), ao que acrescentamos probabilidade. Domínio refere-se às pessoas - sujeitos de vontade - sobre as quais o poder é exercido. Alcance reporta a valores envolvidos, suas gêneses, fruição e controles. Peso, ao grau de participação do ‘sujeito-agente do poder’, na tomada de decisão dos demais ‘sujeitos - pacientes do poder’. Coercitividade diz respeito à coação: - indução de comportamentos favoráveis à realização da vontade do ‘sujeito-agente de poder’, por vias de intimidação ou persuasão, através sanções penais ou premiais. Probabilidade, variando de zero a cem, associa-se ao resultado a ser alcançado, ou seja , não ser realizada com sucesso ou ser parcial ou totalmente realizada a vontade do ‘sujeito-agente’.           

O vinculo interpessoal responsável pela unidade nas organizações e na sociedade moderna de organizações é o mesmo: o poder de realizar valores pessoais, interpessoais, os da organização e os da sociedade. Quanto mais esses valores se aproximem, embora não necessariamente se confundam ou se equalizem, e quanto mais os poderes de realizá-los se afinem numa mesma orquestração - coordenação - maior a coesão e estabilidade de cada organização na sociedade e maior a coesão e estabilidade da sociedade de organizações.

A crise - ruptura num sistema social concreto - pode se instalar quando composição e meios desse sistema se desarticulam, porque os vínculos interpessoais se descompassam, sobretudo quando tais vínculos estão associados ao poder. É uma crise, portanto, de estrutura sistêmica: - crise estrutural.

O poder não é um conceito ideal, não existe por si só. Tem sua gênese numa relação bipolar, sujeito e objeto, o querer de alguém e algo relacionado a esse querer. Essa é sua dimensão volitiva.

Nessa relação haverá sempre uma tensão, resultante de um confronto: o querer de um sujeito contra a resistência do objeto. Quanto maior a resistência, maior a tensão. Por essa razão, toda relação de poder envolve um processo dialético de implicação e polaridade, ou seja, dois polos distintos -  sujeito e objeto -  se implicam na busca de um  resultado: a realização de um querer. A análise dessa relação é, em decorrência, necessariamente crítica: as motivações do ‘sujeito ativo do poder’ referidas a valores e fins, em confronto com os motivos (ou motivações) de resistência do objeto (que pode ser um  ‘sujeito passivo do poder’).

O poder materializa-se na força, sua dimensão objetiva. A força viabiliza a realização do querer do sujeito, pela energia-livre (entropia negativa) que contém, necessária à locomoção ou transformação do objeto quando energia ou matéria apenas, intimidação ou conjugação de vontades, quando este objeto é o querer de outro sujeito.

Dois indivíduos, duas vontades; uma sobrepor-se-á a outra, subjugando-a ou conformando-a a si mesma, pela força da intimidação e conveniência ou pela força da negociação e persuasão, ou seja, através várias formas de relações coercitivas.

Além das dimensões volitiva e objetiva do poder - querer (valor) e força (coação) - há um terceiro aspecto a considerar: - como o poder se nominaliza, ou seja, quais os objetos lingüísticos do poder, seus signos, suas representações? como se comunica? como se instrumentaliza? quais os aspectos funcionais do poder?

A análise crítica do poder ou de um sistema de poder é, pois, necessariamente, tridimensional, devendo considerar três relações ou dimensões: dimensão volitiva (querer-valor), dimensão objetiva (coação-força) e dimensão funcional ou nominal (meio de comunicação-intermediação de vontades).

VALOR, FORÇA, COMUNICAÇÃO E PODER

Base do poder é o valor a que o poder está referido. Valor é o que vale, assim como ser é o que é: não se definem, pois neles, gênero e espécie se confundem. Valor é uma construção do homem; sua gênese está no indivíduo. Uma vez criado, absorve a vontade de quem o criou para ser realizado. Quanto mais intensamente absorva essa vontade, maior a intensidade do valor. Pode-se, pois, conceber uma hierarquia de valores.

KAPLAN & LASSWELL destacam duas categorias de valores, dentre várias outras: - de ‘bem  estar’  e  de  ‘deferência’.    Os de  bem estar’  referem-se  àqueles  cuja  realização  é indispensável à sobrevivência do ser humano, além da riqueza (renda), qualificação (habilitação técnica) e ilustração (saber, conhecimento, cultura). Os de ‘deferência’ visam, nas relações pessoais (R), um resultado comum a ser alcançado: a consideração por algo existente nos ‘atos’ de um, de alguns ou de todos os indivíduos componentes de um grupo social, por parte destes mesmos indivíduos. Nesta categoria de valores estão o  próprio poder, o respeito (honra, prestígio, reputação) e a retidão (valores morais). (1950, p. 87)

Para satisfazer suas necessidades de sobrevivência, guiados pelos instintos, os animais locomovem-se, apenas. É possível descrever os movimentos de forma mecânica, através relações de causa e efeito, e nada mais.

O ser humano ‘atua’, age dirigido finalisticamente:  - constrói fins a partir de valores pré-selecionados, assim como a correspondência entre meios e fins. Todo ‘ato’ é ação exclusiva do homem, sempre dirigida para algo, ou seja, a realização de um valor.

Quando o ‘ato’ visa conhecer ou realizar algo objetivando outras ações de natureza prática, que se sucedem segundo um nexo de conveniência ou oportunidade (cálculos de utilidade), esse  ato’ ou ação é “econômico, ... momento ou elo no processo de produção de riquezas” (REALE, 1957, p. 354).

Os ‘atos’ econômicos referem-se ao valor do útil, que se abre num leque de valores pertencentes à categoria de ‘bem estar’ de KAPLAN & LASSWELL. A vontade de realizá-los é, em certos momentos e circunstâncias de vida do ser humano, soberana, sobrepondo-se a todas as demais vontades de realização de quaisquer outros valores. Isso porque se trata de valores cuja realização é pré-condição à realização do ‘ato’ humano supremo: o de viver e sobreviver.

Os ‘atos’ humanos, cujos resultados pretendidos dizem respeito à saúde e à segurança do organismo, são ‘atos’ de sobrevivência, referidos a valores de ‘bem estar’. São ‘atos’ econômicos de poder, envolvendo vontade(s) de um sujeito detentor desses valores, em confronto com vontades dos executores de ações tendentes à realização desses mesmos valores.

Mas não basta o querer (a vontade). É preciso que esse querer esteja associado a meios ou formas objetivas de ser realizado. Esses meios são os mais diversos, embora todos eles associados a idéia de força ou coação: - força física, força de convencimento, por intimidação ou persuasão, força de sanções, premiais ou penais, que induzam comportamentos favoráveis à realização do querer.

Quem, por que e como alguém pode interessar-se pela saúde de outrem, na sociedade ou no estado? Quais as motivações que levariam “A” a interessar-se pela saúde de “B”, fora de relações de parentesco ou  de afeto? Sanções premiais, como reconhecimento social, satisfação pessoal, ou posturas caritativas? Sanções penais? Medo de contágios, endemias ou epidemias? Corpos sadios para o serviço militar ou força de trabalho?

O poder, quando é uma relação concreta de interdependência de pelo menos dois sujeitos confrontando vontades, situa um diante de outro, entremeados pelo meio-ambiente, também um conjunto de eventos dos mais diversos (SEMANNA, 1984, p.10).

Haverá, em decorrência, necessidade de comunicação (mudança induzida) entre esses dois sujeitos, com vantagem para um deles, Um dirá o que quer e como seu querer deverá ser satisfeito, explicitando ou não o porquê. O outro expressará sua vontade de ser ou não conivente com esse querer. Haverá várias situações possíveis, cada uma delas associadas a meios de comunicação diversos, em diferentes meio-ambientes.

Isso posto, poder é um código, na medida em que atribui alternativas de ação a dois indivíduos pelo menos, os agentes ativo (operador) e passivo (sujeito) desse poder. É um “discurso” provocativo de um possível comportamento, uma indicação de ação, um “sintetizador” de uma situação. “A ação é a medida do poder do indivíduo. Toda comunicação tem como fim uma ação ou do operador ou do sujeito” (SEMANNA, 1984, ps. 22/23).

Para LUHMANN, quem financia a pesquisa, pode influenciar na escolha dos temas e, deste modo, na produção de verdades. Isso não quer dizer que o dinheiro possa ser trocado diretamente por verdades “sem a mediação do código específico de outro meio” (1975, p.84). 

Diferentes valores, diferentes fins, diferentes vontades, diferentes poderes e, em decorrência, diferentes interdependências pessoais e meios de comunicação, signos ou códigos de poder. Pode-se conceber, assim, uma ‘cadeia de poder’, conseqüente a uma ‘cadeia de ação’: um processo de poder que vincula mais de dois sujeitos, um ‘atuando’ sobre o outro até chegar em um último, que não tem poder nenhum.

As relações de poder, entremeadas por múltiplos meio-ambientes, interligando indivíduos de diferentes psiques, que se comunicam por linguagens de signos e códigos diversamente interpretáveis, são necessariamente contingentes. A ‘cadeia de ação’, como sistematização de relações de poder, caracteriza mecanismo organizacional dos mais complexos. Em decorrência das várias linguagens do poder, ou seja, várias formas ou instrumentos de comunicação, haverá a necessidade de uma  instrumentalização a ser coordenada, num concerto de diversos fins contingencialmente hierarquizados. Essa coordenação, portanto, é um desafio crescente - um longo aprendizado na arena da vida. Dela depende a unidade ou rupturas sistêmicas organizacionais : estabilidade ou crises.

Por outro lado, “todo sistema de poder é um dispositivo destinado a produzir efeitos, entre os quais os que se comparam às ilusões criadas pelas ilusões do teatro.... O grande ator político comanda o real através do imaginário”  (BALANDIER, 1980, p.6).

As crises surgem quando o deslumbramento do imaginário cede lugar a desenganos e dúvidas nascidos da “vida cotidiana concreta, direta, rude [que] pesa sobre a tela das aparências e de vez em quando a rompe” (ibidem, p. 78). Isso acontece em todos os sistemas organizacionais sociais: o da educação, o jurídico, o da família e, sobretudo, o da saúde.

BIBLIOGRAFIA

BALANDIER, Georges, O Poder em Cena, trad. Luiz Tupy Caldas de Moura, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1862, (c.1980)

BOBBIO, Norberto, Estado Governo, Sociedade: para uma teoria geral da política, 3ª Ed., RJ, Paz e Terra, 1987, (c 1985)

BUNGE, Mário, Epistemologia, (Barcelona: Ariel) – edição brasileira da EDUSP e T.A.Queiroz, Editor, Ltda, 1980.

GALBRAITH, John Kenneth, O Novo Estado Industrial, trad. de Leonidas Gontijo de Carvalho, 2ª. Ed., SP, Pioneira, 1977

KAPLAN, Abraham & LASSWELL, Harold, Poder e Sociedade, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1979 (c.1950)

LUHMANN, Niklas, Poder, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985 (c. 1975)

REALE, Miguel, Filosofia do Direito, 2 vol., 2ª Ed., SP, Saraiva, 1957

SEMAMA, Paolo, Linguagem e Poder, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981, (c. 1974)

WEBER, Max, Ensaios de Sociologia, organização e introdução de H.H.Gerth e C.Wright Mills, trad. Waltensir Dutra, revisão técnica: Fernando Henrique Cardoso, 3ª. Ed., RJ, Zahar Editores, 1974 (c. 1946)

 

RACIONALIDADE E PODER

Ser racional é dirigir-se por e para alguma coisa: pelo valor e para o fim que o ‘dever ser’, contido nesse valor, indica como motivo de ação (motivação).

“Fim é o dever ser do valor, reconhecido racionalmente como motivo de agir” (REALE, 1957, v.II, p.355).

Todos os ‘atos’ humanos estão referidos a valores, considerando-se valia como o valor do útil (sobrevivência). A conversão de valores em fins é um processo contingente, tenso, por vezes rude, contraditório. Faz parte da tensão do cotidiano, sobretudo quando se trata de fins relacionados ao ‘ato’ de sobreviver. Por que?

Não basta o valor e sua conversão em fins. Fim é o ‘dever ser’ do valor. É indicativo de conduta, é motivo de agir, é motivação, pois o valor que o embasa exige ser realizado, na medida da força e intensidade de sua absorção de vontades.

São necessários ‘meios’ para que essas vontades sejam satisfeitas e, via de conseqüência, realizado o valor. Quando esses meios esgotam-se na pessoa do sujeito de vontades, a tensão ‘valor-realização do valor’ reduz-se ao próprio indivíduo portador do valor. Mas quando esses meios estão fora desse indivíduo ou dependem da vontade de outros sujeitos, relações interpessoais são necessárias. Essas relações são relações de poder. Nesse caso, a tensão ‘valor-realização de valor’ assume intensidades as mais diversas, desde a harmonia e estabilidade das vontades coniventemente orquestradas, até os vários dramas ou crises de descompasso de vontades, que vão desde as simples lutas interpessoais na linguagem do poder (intimidação ou persuasão através discurso verbal ou uso de signos e códigos) até a guerra (conflito generalizado).

Quando os valores, nesse jogo de poder, são valores de ‘bem estar’ essenciais à sobrevivência - valores econômicos - os meios para realizá-los ou satisfazer vontades deles decorrentes são escassos. As crises decorrentes de descompassos de vontades são freqüentes e das mais diversas magnitudes. Por outro lado, as dramatizações, signos e códigos utilizados são variados e incrivelmente criativos, alguns com propósitos diversionistas, para encobrir, minimizar ou camuflar crises.

A única forma de controlar vontades conflitantes  postas por valores econômicos é através de coordenação de vontades, ‘ato’ administrativo por excelência, e, por isso mesmo, necessariamente racional; racionalidade que deve manifestar-se nas inúmeras interações de relações de poder.

O conceito de racionalidade não é uniforme. Max WEBER distingue entre Zweckrationalität, a racionalidade formal e instrumental determinada por uma expectativa de resultados ou ‘fins calculados’ e Wertrationalität, racionalidade substantiva ou de valor, determinada ‘independentemente de suas expectativas de sucesso’, não caracterizando ações humanas interessadas na ‘consecução de um resultado ulterior a ela’ (apud GUERREIRO RAMOS, 1981, p. 5).

HOBBES reduz a razão - capacidade adquirida ‘pelo esforço’- à ‘cálculo utilitário de conseqüências’ (ibidem, p. 3). SIMON concebe racionalidade como o “conhecimento absoluto de conseqüências” (1958).

A divisão do trabalho e conseqüente especialização levaram o ser humano, nas sociedades urbano-industriais, a organizarem-se economicamente, gerando uma intricada malha de interdependências pessoais e, sobretudo, de relações de poder que necessitam ser coordenadas a partir de um princípio de racionalidade referido a ‘cálculos utilitários de conseqüências´, objetivando resultados.

Não poderia ser de outro modo, uns mandando, outros acatando ou desobedecendo ordens destinadas à consecução de fins postos por valores de ‘bem estar’: o útil versus o inútil.

Esse fato inelutável não reduz uma parcela da humanidade - os que obedecem - a um conjunto sistêmico de súditos operacionais, portador de ‘vontades robotizadas’ ou, simplesmente, despida de vontades: um sistema funcional, apenas, de sujeitos passivos da linguagem codificada do poder. Por que?

Porque mesmo as inter-relações pessoais de natureza econômica, sobretudo as de poder, são referidas a valor: - ao valor do útil (valia). E a todo valor corresponde um desvalor: o ‘útil’ põe o ‘não útil’ e, em decorrência, a utilidade põe a desutilidade.

Por mais que força e linguagem do poder condicionem comportamentos no interior das organizações, aparentando que aqueles que obedecem e nada mandam apenas ajam operacionalmente; por mais que a organização pareça ser impulsionada, mecanicamente, por códigos, signos e imagens próprias do sistema de mercado, ou do sistema de planejamento das grandes empresas capitalistas, ainda assim qualquer organização é composta de pessoas, e pessoas não agem apenas, ‘atuamfinalisticamente , sempre referidas a valores.

Se qualquer pessoa ‘atua’ direcionada pelos fins da organização é porque, por alguma razão, tais fins lhe convêm. Como já foi enunciado acima, poder é um código na medida que atribui alternativas de ação aos atores envolvidos. Sempre haverá, por mais remota que seja, a possibilidade do ‘não atuar’. Em outras palavras, por mais que fins organizacionais, através instrumentos de força e linguagem do poder, condicionem ‘atos’ de pessoas, estas sempre terão seus próprios valores-fins. Conflitos de valores-fins da organização com os de pessoas conduzirão a desvalores que, por suas intensidades, poderão provocar rupturas no sistema, ou seja, crises.

A racionalidade funcional ou instrumental que coordena ‘atuações’ na organização, para que comportamentos individuais ou grupais se afinem com os valores-fins organizacionais, não é um software programável, indutor de ações pré-estabelecidas. Ela é dinâmica, decorrente de um jogo de interesses postos pela razão de todos e não de apenas alguns. Esses interesses estão em permanente conflito, dentro e fora das organizações, num confronto de valores e desvalores, utilidades e não utilidades, através processo dialético cuja síntese é ‘ato’ de mudança, ainda que esse processo possa estar camuflado, mesmo por longos períodos, por ‘atos’ de aparentes concessões a conveniências imediatas.

PODER E UNIDADE ORGANIZACIONAL

Toda relação de poder é contingente, variando conforme variam seus cenários, suas arenas, suas linguagens. A interação entre relações de poder implica um relacionamento contingente, o qual “age auto-seletivamente sobre suas próprias possibilidades” (LUHMANN, 1975, p. 83). Faz-se o que é possível fazer e apenas isso.

As organizações em geral e, sobretudo, a organização econômica, são arenas onde, sob várias formas, efetivam-se ou restringem-se interações de relações de poder, aumentando ou reduzindo-se contingências. Nelas decide-se o que, como e para quem produzir, nos limites do possível.

Esse ‘ato’ racional de limitação do possível não transforma a organização em arcabouço instrumental, mero meio de exercício de poder por parte de algum ou alguns poderosos, ou seja, caixa de ressonância de códigos de poder, em que a mensagem ‘faça desta forma’ encontrará uma só resposta: ‘sim senhor’.

A linguagem do poder não é estática, una e permanente. Deriva da dinâmica das relações contingentes de poder, de sua dialética, cuja síntese é a mudança.

Não fora assim, o simbolismo dos meios de exercício do poder - signos, códigos, imagens - desgastar-se-iam, e a linguagem do poder tenderia a um vazio. Exemplo claro é a perda de confiança na moeda: o poder de compra esvai-se, esvai-se a confiança em seu simbolismo.

A organização estabiliza e alcança sua unidade, quando seus vários símbolos, responsáveis pela linguagem de poder, expressam verdades, barganham verdades, ampliam seus cenários de verdades: - as verdades de mudanças necessárias para que sobreviva às exigências cambiantes de seu meio-ambiente, interno e externo. Essas verdades existirão se, e somente se, resultarem ou emergirem da associação de duas realizações de valores-fins: - as das pessoas que compõem a organização e as da razão de ser da organização.

A organização econômica é um dentre muitos tipos de sistemas micro-sociais. Seus limites coincidem com a amplitude que alcança no realizar seu principal fim: - produzir e distribuir mercadoria(s) ou serviço(s), gerando fluxo de renda e aumentando o estoque de riqueza. Para tanto, opera sob normas contratuais objetivas e dispõe de meios operacionais para maximizar a utilização de recursos limitados, a partir de prioridades pré-estabelecidas. Utiliza critérios qualitativos para avaliar equivalência entre mercadorias e serviços.

Esses enunciados aproximam-se do desenho conceptual de organização econômica elaborado por GUERREIRO RAMOS. É criticável, no entanto, sua afirmação de que “a conduta individual, no contexto das organizações econômicas, está fatalmente subordinada a compulsões operacionais, formais e impostas” (1981, p. 134/135). Circunstancialmente subordinada sim, mas fatalmente não.

Repetindo e enfatizando: o homem não se robotiza; ele ‘atua’ finalisticamente, orientado por seus valores-fins, sempre.

Cabe à administração, através seus ‘atos’ de coordenação de fins a meios e, sobretudo, de fins a fins, tornar-se compatível com o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas de seus membros. Isso terá de acontecer mais tarde ou mais cedo, caso contrário a organização tenderá a desestruturar-se, numa sucessão de crises. De início crises individuais, por fim crises coletivas.

Nas organizações, “o poder produz o contra-poder” (LUHMANN, 1975, p. 88), tanto quanto a cada valor corresponde, necessariamente, um desvalor e ao ‘útil’, o ‘não útil’.

BALANDIER, após mostrar que o exercício do poder se encena qual as ilusões teatrais e que seus atores ‘atuam’ comandando o real através do imaginário, conclui:

“O poder está sujeito a ameaças constantes: a da verdade que quebra o quadro de suas aparências; a da suspeita que obriga a manifestar sua inocência; e do desgaste que obriga a revigorar-se periodicamente....A passividade deslumbrada não exclui momentos de desenganos e de dúvidas. A vida cotidiana, concreta, direta, rude, pesa sobre a tela das aparências, e de vez em quando a rompe” (1980, ps. 46 e 78).      

BIBLIOGRAFIA

BALANDIER, Georges, O Poder em Cena, trad. Luiz Tupy Caldas de Moura, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1862, (c.1980)

GUERREIRO RAMOS, Alberto, A Nova Ciência das Organizações: uma reconceituação da Riqueza das Nações, trad. De Mary Cardoso, RJ, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1981

HOBBES, Thomas, in OAKSHOT, Michael, publ. Leviathan, introd. Peters, R.S., London, Macmillan, 1974

LUHMANN, Niklas, Poder, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985 (c. 1975)

REALE, Miguel, Filosofia do Direito, 2 vol., 2ª Ed., SP, Saraiva, 1957

SIMON, Herbert A., Administrative Behavior, New York, Tht McMillan Company, 1958

 

1. Para DAHL,  “ influência é uma relação entre atores, na qual um autor induz outros a agirem de um modo que, em caso contrário, não agiriam”  (apud BOBBIO, 1987, p. 78).

2. Vários autores escreveram sobre essa questão, com destaque a BALANDIER (1980), LUHMANN (1975) e SEMMANNA (a974).

3. “Classes e estruturas sociais são definidas com relação à formação e à distribuição de valores” (DAPLAN & LASSWEL, 1950. , p.87).

4. “O signo é um estímulo ao qual corresponderá uma reação. Representa a intenção de uma situação (assinalada pelo operador)... Pode induzir um comportamento”  (SEMANNA, 1984, p.12).

Autor: Floriano Freitas Filho