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INSISTO, NÃO DESISTO

A primeira vez em que votei foi em 1950. Recém-chegada a Goiânia e com o título de eleitor novinho em folha, escolhi os nomes do Brigadeiro Eduardo Gomes para presidente da República, e Pedro Ludovico Teixeira para governador do Estado. Aguardei ansiosa o resultado das urnas: o Brigadeiro foi derrotado por Getúlio Vargas e Ludovico, vitorioso. Menos mal, que acertei a metade.

Lembro-me da festa de posse de Dr. Pedro, no Palácio das Esmeraldas. O traje exigido era “a rigor”, ou seja, “smoking” ou “summer” para cavalheiros; e vestido longo para senhoras e senhoritas. Mas dava-se um jeito, tolerando-se improvisações e arranjos criativos.

O baile aconteceu nos salões e nos jardins palacianos, onde eleitores e amigos confraternizavam ao som de músicas dançantes e até de alegres marchinhas de carnaval. Dos mais animados era o professor Venerando de Freitas, primeiro prefeito de Goiânia, pé de valsa que distribuía simpatia.

Na eleição seguinte, cometi o erro de não votar em Juscelino Kubitschek, acreditando em que seria um político irresponsável, obcecado por grandes obras que iriam enfeitar-lhe o currículo. Na verdade, não fosse ele meio visionário o que seria do sonho de interiorização da capital do país?

Desconfiada, em 1960 votei em Jânio Quadros, que tinha como opositor o Marechal Henrique Teixeira Lott, militar de respeito, mas político bisonho, cujas frases atrapalhadas eram motivo de galhofa. Assim é que, quando perdeu a eleição, declarou em entrevista à imprensa: “Deixo a vida pública para entrar na privada.”

A despeito da popularidade e do charme pessoal de JK, forte sentimento oposicionista predominava na sociedade. Durante a construção de Brasília, foram tantas as denúncias de roubalheira, que uma espécie de rato do cerrado foi batizado de “Juscelinus candangus” – com o que se associava os desonestos ao próprio presidente da República.

Jânio Quadros governava São Paulo, com reputação de excelente administrador e político sério. Feio, vesgo, magro e mal enjambrado, falava um português castiço, pontilhado de pedantes próclises, ênclises e mesóclises, prometendo “varrer” os corruptos da cena política.

Jânio e sua vassoura ganharam a eleição, para euforia dos que (como eu) esperavam vê-lo conduzir o país com competência e honestidade. Entretanto, poucos meses depois –  em agosto de 1961 – ele renunciou. Teve início a crise político-militar que resultou na supressão de eleições diretas para presidente da República, até 1989. De permeio, tivemos um ensaio de regime parlamentarista; um plebiscito para decidir entre monarquia e república e a aprovação de uma nova Constituição.

Na sequência,  nunca houve tantos postulantes ao mais alto cargo da República: em 15 de novembro de 1989, 22 candidatos foram votados, sendo alguns integrantes da elite tradicional, como Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves. Eram também muitos os expoentes da esquerda incendiária, dentre os quais Leonel Brizola e o assim chamado “sapo barbudo” – o sindicalista Luiz Inácio da Silva, o Lula. Correndo por fora, receberam sufrágios tipos folclóricas como o Marronzinho, o Enéas e certo Correa, que se registrou como candidato, mas teve 0 (zero) voto.

Votei em Mário Covas, político jovem que despontava e me parecia a pessoa certa para conduzir os passos da Nova República. Perdeu feio. Foram para o segundo turno Fernando Collor e Lula, à época um tonitruante revolucionário, de cenho franzido e barba espessa. Votei no alagoano – e deu no que deu. O caçador de marajás, defensor da ética e da moralidade, acabou sendo alvo de impeachment por negócios desonestos, denunciados pelo próprio irmão. Um horror!

Nessa altura dos acontecimentos, cheguei a cogitar de desistir e não votar mais – pensamento que é recorrente na velhice. Mas como ficar omissa, diante de tantos e tão graves problemas que afetam o país, não resolvidos depois de sucessivos governos do PT – e que nos atingem a todos nós, brasileiros, em especial aos meus filhos e netos?

Políticos são necessários: ruim com eles, pior sem eles. Os maus candidatos não chegam sozinhos aos cargos municipais, estaduais ou federais. Somos nós, eleitores, que os colocamos lá.

É responsabilidade nossa manter viva a democracia, que não se restringe ao momento da votação, mas que não existe sem ela e sem a rotatividade do poder. Vamos seguir em frente – insistir, não desistir jamais. E votar nos melhores, com a esperança de que um dia o povo brasileiro terá a governo que precisa e merece.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 07 de outubro de 2014)

Autor: Lena Castello Branco Ferreira de Freitas