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Sesquicentenário de Sebastião Fleury Curado, pioneiro das Letras Jurídicas em Goiás.

Há exatos 150 anos nascia Sebastião Fleury Curado, o pioneiro das Letras Jurídicas no Estado de Goiás. Corria o ano de 1864, na velha capital goiana, no lar de João Fleury de Campos Curado e Mariana Augusta Fleury Curado viria ao mundo um homem de tenacidade e arrojo, digno goiano a quem nosso Estado tanto deve no tocante ao ensino jurídico, às letras, à pesquisa e à história.

Sebastião Fleury Curado foi, sem dúvida alguma, o grande goiano da virada do século XIX para o século XX, na consolidação do ensino jurídico no Estado de Goiás e no reconhecimento nacional por sua grande inteligência e espírito de pesquisa.

Sebastião Fleury Curado elevou o nome de Goiás quando ainda éramos apenas uma Província distante e esquecida, isolada e desprezada; ao mostrar que nas terras de Anhanguera também pulsava o pensamento científico de uma época de profundas mudanças, na maioria, insufladas pelo determinismo das teorias científicas que grassavam em todo o mundo.

Sua voz foi quase única em Goiás nesse período, ouvida além Paranaíba!

Foi ele batizado na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na velha Cidade de Goiás e eram seus avós João José de Campos Curado e Ana das Dores Fleury Curado, pelo lado paterno e João Fleury de Camargo e Mariana Gaudie Fleury, pelo lado materno, em mistura ao sangue vilaboense e cuiabano.

 

No velho casarão junto à Ponte do Carmo na Cidade de Goiás, Sebastião Fleury Curado passou toda a infância, auxiliando o pai que era comerciante e fazendo as suas primeiras letras com o mestre Joaquim Fernandes de Carvalho, no velho prédio no Largo do Chafariz, quando se fazia o ensino cantado e era corrente o uso da palmatória. Em seguida, fez o seu preparatório para o Lyceu de Goyaz, com o professor Ramiro Pereira de Abreu e estudou no velho educandário fundado em 1846, na antiga cidade do Anhanguera.

Aos 16 anos de idade, em 1880, Sebastião Fleury Curado partiu para São Paulo, em companhia de seu tio Jerônimo José Fleury de Campos Curado, para cursar o Colégio Moretzsohn, com o intuito de se preparar para o vestibular em Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Longa e penosa viagem, de meses, o jovem adolescente fez, em busca do seu destino.

Ali, naquele colégio na capital paulista, fez os preparatórios nas disciplinas de Francês, Português, Retórica, Latim, Filosofia e Geometria. Depois de difíceis provas, foi aprovado no Curso de Direito e passou a residir numa pensão de estudantes, alcunhada de “Paredão dos Piques”.

Vida difícil de estudante, Sebastião Fleury Curado, goiano em terra estranha, cedo engajou na luta abolicionista que era efervescente na Faculdade de Direito. Antes dos vinte anos já escrevia artigos inflamados nos jornais A onda e O Liberal, ambos em São Paulo, batendo pela libertação dos escravos. Dentre seus colegas goianos, destacava-se Hermenegildo de Moraes, da cidade de Morrinhos.

 

Em 19 de novembro de 1886, aos 22 anos de idade, Sebastião Fleury Curado colou grau em Direito na Cidade de São Paulo, sendo ele quem prestou o juramento da turma. Formado, tratou logo de voltar a Goiás, deixando na capital bandeirante, oportunidades de fazer carreira gloriosa, mas o sentimento de gratidão à sua Província e a preocupação com a mãe o fez retornar, pois ficara órfão de pai no ano anterior, já que João Fleury de Campos Curado falecera em 01 de outubro de 1885.

Sebastião Fleury Curado e Augusta de Faro. Rio de Janeiro, 1912,

 

            Sebastião Fleury Curado e Augusta de Faro. Rio de Janeiro, 1912,

 

Como irmão mais velho, sentiu sobre si o encargo de auxiliar a velha mãe na condução da família. Na velha capital goiana já se embrenhou na luta política no entrechoque dos partidos Liberal e Conservador, sempre libertário e firme em suas opiniões.

Chácara Baumann na Cidade de Goiás em 1919, com muro de pedras, porteira

 e escadaria sobre um outeiro.


 

Foi nomeado Promotor Público da Comarca da Cidade de Goiás. Tomou parte como Membro organizador da elaboração do Código do Processo do Estado de Goiás. Como jornalista, fundou o jornal O Goyano. Também,colaborou intensamente nos jornais O Publicador Goyano e O Goyaz.

Sebastião Fleury Curado foi membro da Comissão da Junta Organizadora da Constituição do Estado de Goiás em 1890. Foi eleito Deputado Estadual e à Constituinte de 1891, com apenas 26 anos de idade, foi o mais votado de seu tempo.

 

Como Constituinte, criou a emenda que preconizava, nos primeiros dias do novo regime, a eleição para Presidente da República e que dava direito de voto aos estudantes maiores de 18 anos.

 

No alto do outeiro, á sombra do jatobazeiro, a velha Baumann continua como sentinela do passado, guardiã de tantos amores desaparecidos para a eternidade...

 

Foi na capital federal que em 29 de junho de 1893 casou com sua prima Augusta de Faro Fleury Curado, filha do conselheiro André Augusto de Pádua Fleury e Paula Eufrosina de Faro. Seu sogro havia dirigido a Faculdade de Direito de São Paulo e também as Províncias do Ceará e Paraná. Foram padrinhos do casamento Cândido de Oliveira, Joaquim Nabuco e Índio do Brasil.

Era a promessa de um amor antigo que se consolidara firme e resoluto.

 

Logo após o casamento, ainda no Rio de Janeiro, propôs; juntamente com os Deputados Mendonça, o Projeto de mudança da capital federal para o interior do Brasil. Tal fato só veio ocorrer em 1960, com a construção de Brasília.

Terminado seu mandato de Deputado Constituinte, Sebastião Fleury Curado permaneceu no Rio de Janeiro por algum tempo, abrindo escritório de advocacia com seu sobro Pádua Fleury e com o Conselheiro Cândido de Oliveira. Em 1896, faleceu seu sogro e resolveu voltar definitivamente para Goiás, fazendo com a esposa e os dois filhos menores, Maria Paula e André, uma longa viagem narrada em diário por Augusta de Faro Fleury Curado sob o título de Do Rio de Janeiro a Goyaz – 1896 – A viagem era assim.

Morou inicialmente na Rua do Carmo e em 1903 construiu a aprazível Chácara Baumann, num outeiro de majestosa vista, nas cercanias da Cidade de Goiás.

Foi nomeado nesse tempo Procurador da República em Goiás e um dos fundadores da Academia de Direito de Goiás, regendo a Cadeira de Filosofia do Direito, em 1904. No ano seguinte, 1905, foi nomeado Secretário do Interior e Justiça e, depois, eleito Deputado Estadual por Catalão, assumindo a Presidência da Assembleia.

Possuía, também, escritório na Rua Couto Magalhães na velha capital de Goiás e trabalhava com afinco, pesquisando e estudando sobre a história de Goiás e sobre o ensino jurídico. A primeira auxiliar de seu escritório foi sua filha primogênita, Maria Paula, mais tarde Mariana Augusta, que organizava sua correspondência. Quando já idoso, suas colaboradoras nesse mister foram as filhas solteiras Clarisse, Hermínia e Josefina; sendo que a última se casou mais tarde com Alfredo Piquet.

Em 1909, tomou parte da alcunhada Revolução Branca que depôs o Governo de Xavier de Almeida, dando início ao Caiadismo. Era articulado politicamente e acatado em suas opiniões sensatas ao bem do Estado de Goiás.

Em 1912 foi eleito Deputado Federal por Goiás e fez parte da Comissão encarregada da revisão do Código Civil Brasileiro, da qual faziam parte Afrânio de Melo Franco, Gumercindo Ribas e Meira Vasconcelos, grandes juristas brasileiros.

Findo seu mandato no Rio de Janeiro, voltou a Goiás onde retomou seu cargo de Procurador da República e Professor da Faculdade de Direito de Goiás. Aposentou-se no cargo de Procurador da República, no ano de 1931.

Foi um dos fundadores do Jornal Voz do Povo, oposicionista ao O Democrata, de Antonio Ramos Caiado. Em 1935 foi nomeado Diretor da Faculdade de Direito de Goiás, muito trabalhando para a sua equiparação. Colaborou também no jornal Cidade de Goiás, fundado por Garibaldi Rizzo de Castro.

 

Foi ainda sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; sócio assistente do Instituto Genealógico Brasileiro; Membro-fundador da Associação Goiana de Imprensa.Promotor Público, Juiz de Direito e Procurador da República em Goiás, cargo este que exerceu por mais de vinte anos.

Sebastião Fleury e Augusta de Faro com seus filhos e netos na Chácara Baumann, na Cidade de Goiás em 1928.

Professor na Academia de Direito, lecionou as matérias: Filosofia do Direito (1904); Direito Romano (1916); Direito Penal (1922); Direito Civil (1930) e, em 1932, foi nomeado diretor da então Faculdade de Direito de Goiás.

Foi fundador da Academia Goiana de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Escreveu importantes livros como Três memórias históricas e Memórias históricas. Deixou centenas de artigos em jornais e revistas de Goiás e do Estado de Mato Grosso.

Enviuvou em 11 de abril de 1929. Foi paciente e dedicado companheiro na longa e pertinaz enfermidade que acometera sua esposa ao longo de alguns anos, por problemas renais e veio a falecer em 2 de maio de 1944, aos 80 anos em Goiânia, sendo sepultado na cidade de Goiás, no mesmo túmulo de sua amada Augusta de Faro.

 

Foi homenageado como o nome da rua do antigo cais do Rio Vermelho, lugar onde nascera, com um busto em bronze, também, nome de rua no Setor Criméia Leste em Goiânia. Patrono da Academia Goiana de Letras, patrono do IHGG, Patrono da Academia Trindadense de Letras.

Sebastião Fleury, Procurador da República em Goiás.

De seu casamento deixou oito filhos, sobrevivendo sete até a longevidade:

 A primeira, Maria Paula Fleury de Godoy (1894-1982) – escritora e professora; foi casada com o jurista Albatênio Caiado de Godoy, também escritor; autor de Do meu tempo e Como estabilizar a democracia. Deixou ela vários livros publicados como Velha casa, Suave caminho,Nós e elas, Sombras, A longa viagem, Realidade e sonho. Dentre seus filhos se destacaram as escritoras Terezy Fleury de Godoy, autora de Eterna busca, Versos apenas, Filigranas, Pré-estréia; Marilda de Godoy Carvalho e Augusta de Godoy Cordeiro Machado, autoras de Bailado da vida e O bailado continua.Dentre seus netos destacam-se os escritores Ivan Godoy, Juliana Lobo de Godoy e Denise Godoy de Carvalho Verano.

O segundo, André Fleury Curado foi engenheiro técnico da Fazenda Modelo em Urutaí. Foi casado com Maria Coelho Fleury, e dentre seus filhos destacam-se a educadora maria Augusta Fleury de Bastos e o aviador Piragibe Fleury Curado.

 

A terceira, Mariana Augusta Fleury Curado (Nita 1897-1986) também foi notável escritora, autora de Vida, Rua do Carmo, Do meu cantinho, Fleurys e Curados, Retalhos de vida. Foi casada com o genealogista e escritor AgnelloArlíngton Fleury Curado, autor do livro Origem dos Fleury no Brasil e Mosaico da história das américas. Dentre seus filhos destacaram-se o escritor e historiador, Desor. Sebastião Herculano Fleury Curado, pesquisador notável e juiz competente, já falecido e Zilah Fleury Curado Teixeira, pioneira dos clubes da terceira idade em Goiânia, além da notável geógrafa Sônia Fleury Curado Fernandes.

No seu escritório na Cidade de Goiás, em sua escrivaninha, produziu e pesquisou até os últimos dias de vida. Um notável homem da história goiana, que tanto amou Goiás.

 

A terceira e a quarta, Clarisse e Hermínia Fleury foram donas de casa, solteiras e sem sucessão.

O quinto filho, Sebastião Fleury Curado Filho foi odontólogo, casado com América de Barros e depois Carmelita Maria Fleury Curado, com sucessão.

O sexto filho foi o notável jurista, professor e historiador Dr. Augusto da Paixão Fleury Curado, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, casado com Ivany Craveiro Fleury Curado. Dentre seus filhos destaca-se a escritora Augusta Faro Fleury de Mello, autora de Lua pelo corpo, Mora em mim uma canção menina, Avessos do espelho, A friagem, Boca benta de paixão, além de ser pioneira da poesia infantil goiana e Graça Fleury, professora e pesquisadora.

E Josefina Maria Fleury Curado Piquet, normalista e formada em Filosofia, foi casada com Alfredo Piquet, trabalhou na LBA, sem sucessão.

Este foi o legado de Sebastião Fleury Curado, jurista, professor, pesquisador, jornalista, articulador cultural, advogado, Juiz de Direito, Procurador de justiça, Procurador da República em Goiás, notável homem que precisa ser lembrado como um ícone às futuras gerações.

Nesse sesquicentenário de seu nascimento, a homenagem do povo goiano à sua inestimável figura histórica, reta, impoluta e inesquecível.

 

 

Bento Fleury (Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado). Graduado em Letras e Linguística pela UFG. Mestre em Literatura pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutorando em Geografia pela UFG. Professor, pesquisador e poeta. bentofleury@hotmail.com


Autor: Bento Fleury