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Discurso do presidente da Noite Cultural Elza de Freitas

Valho-me, nesta noite, usando um pouco da licença poética que me é permitdo, de um ocorrido com um membro desta confraria. A confreira chegando a sua casa, recebe de sua auxiliar doméstica o seguinte recado: “Patroa, ligaram da academia. Perguntei do que se tratava e não disseram nada. Acho que é para oferecer um daqueles pacotes que inclui natação, esteira, pilates e musculação”. E, para complicar mais ainda o mal entendido, a inocente senhora acrescentou o conselho que qualquer comadre daria nessa situação” “Ah, patroa, mas a senhora pode. Por que não contrata um personal trainner? É muito melhor que frequentar a academia.

O fato, embora um tanto burlesco, fez-me pensar nas relações que existem, ou que podem ser estabelecidas, entre a academia de ginástica – que é o que a empregada se referia - e a academia de letras, ciências e artes – de onde a ligação telefônica se originara. Assim, numa tentativa de aproximação e análise, é possível afirmar que o fluxo exorbitante na primeira revela uma nova concepção sobre o corpo, e a corporeidade como um todo, num contexto tipicamente pós-moderno, muito bem discutido pela Escola de Frankfurt e pelos marxistas culturais, como Frederic Jameson, salientando que se trata do modo de ser no que ficou chamado de capitalismo tardio. Nessa perspectiva, se o simulacro é o que vale, e não o real, todos correm nas esteiras, descem e baixam pesos, curvam-se e exercitam-se de toda maneira nas máquinas do fisiculturismo. Importa ficar parecido ao protótipo veiculado pela mídia, num sentido estritamente aparente, que vai muito além da simples manutenção de saúde. Não importa o ser, mas o parecer. Isto é, neste caso, não importa ser saudável, mas parecer saudável. E esse fluxo, obviamente, responde ao crescente apelo estético que hoje em dia pode ser traduzido como a voz das massas, o desejo que impregna o imaginário popular e aliena as vontades.

Mais do que isso, o fato nos ajuda a elucidar outras questões interessantes. Por exemplo, quando a bem intencionada senhora vira para a patroa e pergunta:  “Mas a senhora pode. Por que não contrata um personal trainner? É muito melhor que frequentar a academia”. O ato de “frequentar” implica necessariamente um conjunto de interações sociais, de interações subjetivas e da submissão a regras de conduta, as quais podem ser evitadas se você pode pagar. O poder financeiro nessa realidade pós-moderna passou a ser instrumento de subterfúgio dos compromissos humanos e da fuga do sentido de coletividade, o qual nos identifica culturalmente. Mas se “você pode”, por que se esforçar tanto? Em vez de ir, por que não vir? Em vez de dar, por que não receber? Em vez de ouvir, por que não falar? Em vez de seguir determinações, por que não dá-las? Em vez de produzir, por que não somente apreciar? Simplesmente consumir, como se tudo fosse mera mercadoria?

Consequentemente, as pessoas deixaram de exercitar aquilo que é mais caro à humanidade: o raciocínio, a reflexão, o livre pensamento e, enfim, a capacidade de produção intelectual - O que está se tornando lamentavelmente um exercício de poucos. Com isso, decai também a apreciação estética e a sensibilidade. De repente o feio passa a ser bonito, o desarmônico passa a agradar, o tosco se transforma em referência, o mal feito parece uma obra-prima e o formal, o erudito, enfim, o acadêmico, perdem-se nas cordas bambas de uma vida que balança aos ventos do supérfluo, do efêmero, do vulgar e do grotesco.

Caros confrades que ora tomam posse, João Colagem, Joabe Freitas, Ivone Cruz e Geraldo Silva, ao cumprimentá-los e dar-lhes as boas-vindas, apresento-lhes, ao mesmo tempo, o desafio que temos. Ao entrar nesta augusta casa, saibam que estão entrando numa espécie de academia cujos frenquentadores se exercitam não pelo que é aparente ou passageiro, mas pelo que é eterno. Suas ações são voltadas para fortalecimento da cultura no corpo social e toda ginástica aqui empreendida tem em vistas o bom funcionamento das artes, das letras e da ciência. E não coisa melhor do que sangue novo para dinamizar a circulação e garantir que o fluxo atinja todas as partes e proporcione a saúde que a cultura tanto necessita. João é um artista de renome internacional que recorta e cola reproduzindo significados que evocam o belo nas coisas mais simples; Joabe tem a capacidade de navegar pelas línguas clássicas e modernas, como ninguém, além de sua produção artesanal que revela o sujeito eclético e polivalente que é; Ivone sobe ao palco e se transforma, vive a personagem e irradia a sensibilidade numa catarse que faria Platão aplaudir de pé; Geraldo é guerreiro com armas das artes plásticas das quais utiliza para transmitir sua sensível apreensão do real. Cada um com sua arma, passa hoje para a condição de imortal, habitando, dessa forma, o Panteão trindadense para, como os deuses do Olimpo, sentir como humanos e defender os humanos contra o que a primeira Academia, a de Platão, lutou tanto: a ignorância.

Há exatos vinte e três anos a ATLECA vem tentando cumprir esse papel. À oportunidade de seu aniversário – o qual comemoramos nesta noite – lembramos do nome de Elza de Freitas. Uma das trindadenses de coração (pois nasceu em Goianira) que mais estudou a música erudita e mais tentou divulgá-la nas escolas desta cidade, além de encantar com sua voz o abnegado Pe. Pelágio. À época da criação da academia, em 20 de agosto de 1990, Elza tocava Chopin com a doçura e a leveza que devem ser resgatadas. Fato que a levou a ocupar a cadeira n. 10 desta confraria. E Elza deixava claro em suas falas que isso é um dever da sociedade – e aqui incluindo pais, escolas, poder público e instituições como a nossa. Que o exemplo dessa mulher fique gravado em nós desde sua partida em 1995.

Agora, voltando ao exemplo do início, talvez a confusão da própria doméstica não seja outra a confusão do próprio termo em sua semântica. Academia? Que academia? É difícil saber se o termo usado está para universidade, ou para academia grega, ou para a academia militar, como a das Agulhas Negras, a mais famosa, ou para a escola da polícia civil ou para a academia de dança e ginástica. Talvez as pessoas não estejam erradas quando se confundem e, ao buscar na mente o sentido da palavra, venha apenas o sentido mais próximo, mais real, mais concreto e mais aparente. O que nos leva, como acadêmicos, a refletir sobre a premente necessidade de se aproximar mais do público, de tornar nossa produção intelectual um tanto mais concreta e mais real para o cidadão comum. Urge, portanto uma ação de fazer da ATLECA – Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes, uma instituição mais visível e mais significativa. E para tanto, é necessário o esforço de todos.

Nesse sentido, quero agradecer primeiramente aos criadores, na pessoa do Prof. Bento Fleury; quero enaltecer a participação de todos que ocuparam uma cadeira, sejam falecidos ou vivos; quero dignificar o trabalho dos presidentes que me precederam, assim como os demais membros das diretorias que administraram a academia; quero exaltar também o esforço da atual equipe e dos membros que atuam no momento, de alguma forma. E na pessoa da confreira Iraci Borges, registrar o trabalho que um grupo vem tendo no pleito de uma nova sede. Como resultado, não poderia deixar de agradecer a calorosa recepção e o atendimento do prefeito municipal e da primeira dama. Nosso muito obrigado. O que fazem pela academia não é somente para nós, acadêmicos, mas para toda a cidade, para nossos filhos, netos e todos os descendentes. Com a doação do terreno e o aluguel de uma sede provisória, seus nomes ficarão eternizados nesta augusta casa e na memória de todos.

Por fim, como se fosse um treinador físico de uma academia de ginástica, sinalizo a todos para dizer que é hora de suar a camisa, de exercitar e combater o sedentarismo intelectual e fazer de tudo para que nossa casa se destaque e atinja o nível de conhecimento que, se um dia, alguém ligar para a casa de qualquer um de nós e deixar o recado da academia, você poderá perguntar seguro: que academia? E certamente ouvirá a seguinte resposta: “de Letras, ciências e artes, ora. Qual outra seria?”

 

Muito obrigado.

Autor: Wilson Alves de Paiva