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Sobre os elos de uma confraria

Sempre gosto de começar minha fala dizendo que espaço é este em que estamos. Não me refiro ao espaço físico, mas o que representa esta agregação de idealistas no campo da cultura. Entretanto, o espaço que ocupamos hoje não é novidade, pois teve sua gênese na Grécia antiga, passando pela França e pelos intelectuais cariocas, como Machado de Assis quando o mesmo idealizou a Academia Brasileira de Letras. Novidade foi um jovem interiorano pensar em constituir o mesmo espaço em Trindade. Assim, há 23 anos o sonho do goiano Bento Alves Araújo Jaime Fleury Curado, por ser tão intrometido nas letras, seja na poesia, seja na prosa, conseguiu convencer outros tantos idealistas para estabelecer as cadeiras de uma confraria inusitada. Assim nasceu a ATLECA – Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes do fruto das andanças pelas ruas de Trindade, de Goiânia e de outras tantas paragens onde Bento teve que colher nomes como o de Goiandira do Couto, Bariani Ortêncio, Colemar Natal e Silva, Eli Brasiliense, Lindomar Castilho, Omar Souto, entre outros nomes distintos que ocuparam as primeiras cadeiras.

Como se fosse uma família, com seus membros sentados à mesa, a cadeira n. 37 – num total de 40 - foi ocupada inicialmente por alguém como Bento: mesma assinatura, mesma garra, mesmo ímpeto e mesmo talento. Como elos de uma mesma corrente Bento se ata mais uma vez a Rosarita Fleury. Por isso resolvemos dar a esta noite o nome de noite cultural Rosa Rosarita, título de um poema de Bento Fleury. E quem lê suas obras consegue perceber o cheiro de pétalas secas, caídas e levadas ao vento. No romance “Elos da mesma corrente”, no qual retrata o cotidiano de famílias goianas, com suas idiossincrasias, na pág. 374, a autora descreve um momento desses encontros e desencontros familiares: “Do outro lado da varanda... serena e à vontade...um pouco mais silenciosa... Ana serviu licores de jenipapo e anis, à escolha. Veio depois a mesa com doces e pudins. Judith mandou chamar os homens reunidos na sala da frente. Eles comeriam primeiro, conforme o costume. Depois, então, as senhoras e as crianças, cada mãe servindo seu filho do que mais fosse de seu agrado. Às oito horas, quando já se haviam fartado dos doces, vieram as bandejas de café e bolos. Os bolos ficaram desprezados e apenas alguma ou outra criança quis provar deles. Não havia mais lugar para tanto guloseima – comentavam as matronas seriamente penalizadas. Judith pediu licença. Ia amamentar Pedrinho. Olhando para Carolina, com quem apenas troca algumas palavras, convidou: Não que vir comigo?”

Tal como descreve Rosarita, a varanda, provavelmente rústica e improvisada, era, no entanto, a parte mais visitada da casa e o lugar onde as quitandas, os doces e todo tipo de guloseima estava à disposição. A varanda que Bento improvisou continua rústica, sem sede própria, sem apoio governamental e às vezes desacreditada pelos seus próprios membros. Como a personagem Judith (p. 385) ficava horas e horas sozinha na sala a ouvir o burburinho dos filhos brincando no quintal, às vezes ficamos na Academia a ouvir os burburinhos dessa família gerada das entranhas intelectuais do Bento. Na verdade, é ele que se senta na sala, à distância, e fica pensando que estão fazendo na varanda? Por que não sentam e comem das delícias que estão lá ofertadas? Como Alfredo, o nobre chefe de família (p. 145), dá vontade de responder a quem não quer continuar nessa lida: “Se não quer comer, fique, até que todos se levantem!”. Só ele, à semelhança do coronel, sabe o trabalho que deu às cozinheiros, aos serviçais e a todos os demais, o laborioso trabalho de preparo do banquete, desde o preparo da lenha, à limpeza do fogão, das panelas e das cinzas. Nessa metáfora, vem à lembrança o esforço de D. Iraci soprando as brasas que teimavam e se apagar. Assim como o esforço das demais diretorias em manter a casa de pé, mesmo sem apoio e às vezes até sob ataque de forasteiros, para não dizer de alguns de seus filhos que, sem fome, levantaram-se antes da hora e não tiveram paciência para esperar. Dos prefeitos, vale citar o grande apoio de Pedro Pereira que abrigou a Academia no Sobradinho e o atual gestor público que nos prometeu abrigar em algum lugar.

Em sua crônica pelos 20 anos da ATLECA, Bento escreveu: “Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes é uma entidade cultural de nossa cidade, sobrevivente a tantos vendavais que varrem cotidianamente o cenário das instituições que trabalham o belo e o imperecível, num país onde cultura é lixo, infelizmente. Uma sobrevivente sim, pelo sonho e idealismo dos que sabem amá-la e protegê-la”.

E é com as palavras e o exemplo do Bento e com a escrita cheirosa de Rosarita Fleury, que quero saudar nosso novo sócio titular, Prof. Eloiso Alves de Matos, o qual entra pela primeira vez nessa varanda tão rica e tão cheia de preciosidades para serem degustadas: poemas, contos, artigos, peças de teatro, pintura, música, ciência, pedagogia, administração e outras manifestações do espírito humano postas à mesa da ATLECA. Da mesma forma, saúdo aos quatro sócios titulares que hoje migram da varanda para o salão nobre desta casa, que é a categoria de Sócio Emérito. São aqueles que já degustaram tanto dessa comida, que já contribuíram tanto com a mesa que seu lugar é no panteão desta casa que, repito, embora rústica, tem o mesmo espírito da Casa de Machado de Assis. Bento Fluery e Iraci Borges os aguardam na sala dos eméritos, a qual hoje ganha mais quatro cadeiras para: Floriano Freitas Filho (3), Lena Castello Branco Ferreira de Freitas (4), Antônio Alves de Carvalho (5) e Maria Geralda de Carvalho (6). Saúdo também os três que, a partir do alpendre, já batem à porta, contribuindo com a casa: Paulo Afonso Tavares, que já autor de um livro sobre a Matriz de Trindade; Thiago Mariano, excelente músico; e, por fim, um que veio pelo correio: o poeta alagoano Olegário Venceslau Silva, o qual soube da Academia por acesso ao site e, interessado em participar do banquete, enviou-nos sua candidatura.

Como um mero porteiro, o que faço é abrir o tramelão da porta, como fez o preto José (no início do capítulo II, p. 17) e repito as palavras de Nhã Ogênia: “Louvado seja”. Espero que a resposta de vocês seja como a resposta de Mercedes, personagem do livro de contos Sombras em Marcha, de Rosarita Fleury, que disse ao coronel ao chegar de Corumbá: “De qualquer forma, nossa vinda para cá foi providencial e boa”.

Novamente parafraseio a crônica escrita por Bento Fleury para dizer que na história de nossa Academia estarão imortalizados os feitos desses homens e dessas mulheres notáveis. São eles a alavanca do tempo, batalhadores do bem comum, imortais no edificante serviço presta­do ao Estado na sustentação de nossa base cultural. São eles os pioneiros, juntamente com Elza de Freitas, Ediberto Marcolino, Lúcio Arantes, Maria Emídio e tantos outros nomes que assentaram à mesa e se deliciaram com nossa comida.

Enquanto isso, eu e tantas outras crianças, adultos e jovens da varanda, continuamos a produzir e degustar guloseimas. Ora um poema aqui, ora outro ali, um conto, um quadro, uma música, uma foto, um artigo, uma reflexão filosófica e outros petiscos da arte e da sabedoria humana iniciada com a filosofia grega e desenvolvida ao longo dos séculos. É bom estar nesse lugar. E aos que ainda não adentraram o espaço desta varanda, fica meu convite: “Não que vir comigo?” Afinal a ATLECA, como flor do cerrado, mesmo sem água, sob o tino do sol e seco vento, continua a desabrochar.

 

Muito obrigado!

Autor: Wilson Alves de Paiva